A Venezuela treme, e o silêncio ao redor também
Análise · Clara Verdi Há países que acumulam tragédias de um modo que parece, ao observador externo, quase didático — como se a história insistisse…
Análise · Clara Verdi
Há países que acumulam tragédias de um modo que parece, ao observador externo, quase didático — como se a história insistisse em demonstrar um ponto que ninguém quer ouvir. A Venezuela é um desses países, e o que aconteceu desde o dia 24 de junho pertence a essa categoria de eventos que exigem atenção não apenas pela escala, mas pelo que revelam sobre quem presta atenção e quem não presta.
Dois terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o país em sequência. Não é uma distinção técnica menor: terremotos gêmeos dessa envergadura são raros, e a combinação de dois eventos dessa magnitude sobre um território já fragilizado por mais de uma década de colapso institucional, escassez de infraestrutura e emigração em massa de profissionais — inclusive de engenheiros, médicos, técnicos — cria uma equação cuja soma é sempre pior do que as partes. Nos dez dias que se seguiram, mais de 800 réplicas sacudiram o mesmo território. Oitocentas vezes o chão se moveu sob os pés de uma população que já havia aprendido, por outros meios, que o chão pode desaparecer.
O dado dos 800 tremores é perturbador não apenas pelo número. É perturbador porque cada réplica impede que estruturas comprometidas sejam avaliadas com segurança, que moradores retornem a casas parcialmente danificadas, que equipes de resgate trabalhem sem risco adicional. Em qualquer país com sistema de resposta a desastres funcionando em plena capacidade, 800 réplicas em dez dias seria uma crise de gestão complexa. Na Venezuela de 2025, é uma crise sobre uma crise sobre uma crise.
O terremoto não escolhe o momento de cair. Mas a capacidade de resposta ao terremoto é inteiramente política.
Não é possível separar o que acontece na Venezuela de tudo o que precedeu esses dez dias. O país perdeu, nas últimas duas décadas, uma proporção extraordinária de sua população economicamente ativa para a migração — a maior crise de deslocamento da história da América Latina, frequentemente esquecida porque os venezuelanos se espalharam por outros países latino-americanos e não chegaram em massa às costas europeias. A infraestrutura que restou é, em muitos casos, a infraestrutura que ninguém conseguiu carregar na mala. Pontes, hospitais, redes elétricas — essas coisas ficam. O capital humano para mantê-las, muitas vezes, foi embora.
Observar isso de Bruxelas, onde discute-se nesta semana a enésima rodada de sanções e contramedidas envolvendo o regime Maduro, é perceber o abismo entre a linguagem da geopolítica e a linguagem do chão que treme. As sanções têm uma lógica, seus defensores têm argumentos, e este não é o espaço para esse debate. O que cabe dizer é que quando o chão treme oitocentas vezes em dez dias, essa lógica precisa pelo menos pausar para perguntar quem está, concretamente, sob os escombros.
A Venezuela não é um caso de estudo. É um país. E países que tremem dessa forma — sísmica e politicamente ao mesmo tempo — merecem mais do que uma nota de rodapé no noticiário internacional.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Venezuela registra mais de 800 réplicas após terremotos gêmeos
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL