O preço do Maracanã, a alma nem tanto
Análise · Marcos Tibúrcio Duzentos mil dólares. Em papel timbrado, com a assinatura de senhores engravatados, este é o preço para alugar o Maracanã…
Análise · Marcos Tibúrcio
Duzentos mil dólares. Em papel timbrado, com a assinatura de senhores engravatados, este é o preço para alugar o Maracanã para uma final de Copa do Mundo. Na frieza da conversão monetária de um acordo firmado em agosto de 2025, R$ 1,156 milhão. O número, despido de qualquer alma, é o que a Fifa desembolsará para usar o estádio que Mário Filho sonhou e que o povo ergueu.
O futebol, há muito, virou negócio de cifras altas e contratos aditivados. Não há surpresa nisso. O que espanta, ou deveria espantar, é a banalidade com que se trata o templo. Flamengo e Fluminense, os atuais inquilinos do colosso de concreto, cobram hoje R$ 300 mil por um jogo qualquer de meio de semana. A Fifa, para o maior palco do futebol feminino mundial, pagará um valor que, mesmo na cotação da época, mal equivale a quatro aluguéis domésticos. Um desconto, quase uma pechincha, em nome do prestígio global.
É uma barganha que revela o lugar do Brasil no mapa do futebol-empresa. Somos o cenário exótico, o pano de fundo de paixão que valoriza o produto, mas cujo balcão de negócios ainda opera com a moeda da deferência. O consórcio Fla-Flu, que administra o estádio, já contesta o período de cessão, a preservação do gramado. É a prosa do dia a dia, a preocupação legítima de quem precisa pagar as contas de luz e água da arena. Mas a discussão que importa é outra.
O Maracanã não é apenas um estádio com capacidade para milhares. É um estado de espírito. É o silêncio de 1950, o voo de Pelé em 1969, a consagração de Zico. Cada assento ali guarda o eco de um grito, de um lamento, de uma prece. Alugá-lo por uma quantia fixa, com descontos progressivos por mais partidas, é como tentar tabelar a história. É tratar a memória como um serviço com preço variável.
A Fifa, em sua lógica impecável de planilha, paga pelo uso do espaço físico. Paga pela estrutura, pela localização, pelo nome que estampará seus materiais de marketing. Mas há coisas que o dinheiro não aluga. A alma do Maracanã não vem na fatura. Ela pertence a quem já chorou ali, a quem deixou a voz na geral, a quem viu o impossível acontecer sobre aquele gramado. A final da Copa de 2027 terá o maior palco do mundo. Resta saber se, por duzentos mil dólares, conseguirá ouvir a sua voz.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Fifa pagará R$ 1,156 milhão pelo aluguel do Maracanã na Copa Feminina
Fonte: ge