O preço de encerrar uma dúvida científica
Análise · Dra. Camila Torres Um acordo de 5,5 bilhões de dólares não compra uma verdade científica, mas pode comprar o seu silêncio.
Análise · Dra. Camila Torres
Um acordo de 5,5 bilhões de dólares não compra uma verdade científica, mas pode comprar o seu silêncio. A proposta da Johnson & Johnson para encerrar as dezenas de milhares de ações que ligam seu talco ao câncer de ovário é um movimento de gestão de risco, não um veredito epidemiológico. A empresa, enquanto estende o cheque, reitera que o produto é seguro, que as alegações são “infundadas” e que prevaleceria nos tribunais. A coexistência dessas duas posições — a negação da culpa e o pagamento bilionário para encerrá-la — é o cerne da questão.
O litígio durou uma década, alimentado por uma premissa científica plausível, mas de difícil comprovação. O talco, um mineral de magnésio, silício, oxigênio e hidrogênio, pode ser encontrado em depósitos geológicos próximos aos do amianto, um carcinógeno conhecido. A hipótese dos demandantes era a de que uma contaminação crônica, mesmo que mínima, ao longo de anos de uso de um produto culturalmente associado ao cuidado e à higiene, poderia ter contribuído para o desenvolvimento de tumores ovarianos. A empresa sempre negou a contaminação e a causalidade.
Provar que a substância A causou a doença B num indivíduo específico é um dos maiores desafios da medicina legal e da epidemiologia. Diferente de um ensaio clínico controlado, aqui se lida com a retrospectiva, com a complexidade de múltiplas exposições e predisposições genéticas ao longo de uma vida. Uma vitória judicial recente da J&J, na qual um juiz federal questionou justamente a capacidade dos demandantes de estabelecer essa linha causal direta, talvez tenha pavimentado o caminho para este acordo. Para a empresa, a incerteza contínua dos tribunais, com o risco de um único veredito desfavorável de valor astronômico, tornou-se mais cara do que um acordo definitivo.
Para o público, a resolução deixa um vácuo. Não teremos uma conclusão científica definitiva vinda dos tribunais. O que fica é a imagem de um produto que um dia habitou os lares como símbolo de pureza e que, desde 2020, foi discretamente substituído por uma fórmula à base de amido de milho. A batalha legal se encerra, mas a dúvida científica, rigorosamente falando, permanece em aberto. O acordo de 5,5 bilhões de dólares não é o preço da culpa, mas o custo de poder, como disse um porta-voz da empresa, “deixar este assunto para trás”.
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Johnson & Johnson propõe acordo de US$ 5,5 bilhões para encerrar
Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.