O pódio silencioso de Huntsville
Análise · Marcos Tibúrcio Cinco medalhas. O número, frio, encerra a passagem do Brasil pelo asfalto de Huntsville, nos Estados Unidos.
Análise · Marcos Tibúrcio
Cinco medalhas. O número, frio, encerra a passagem do Brasil pelo asfalto de Huntsville, nos Estados Unidos. É o que fica para o registro, para o boletim oficial que o comitê guardará na gaveta. Mas o que se viu nas estradas do Alabama foi outra coisa — menos planilha, mais asfalto queimando a pele. Foi o drama de corpos que se recusam a aceitar o limite que lhes foi imposto.
O paraciclismo de estrada não tem a gritaria do Maracanã. Não há bandeirão, não há o xingamento fraternal ao juiz. A arquibancada é o silêncio do esforço, o som da corrente esticada e da respiração que falta. É nesse palco mudo que Victoria Barbosa, paranaense, classe C1 — para quem entende, a categoria dos que carregam as deficiências motoras mais severas —, buscou dois bronzes. Um no contrarrelógio, outro na resistência. Duas vezes ao pódio, ladeada por uma chinesa e uma australiana que se alternaram no topo.
Victoria escreveu que queria mais. É claro que queria. O atleta que se contenta com o pódio já começou a descer dele. Mas o esporte, como a vida, não é um roteiro que se escolhe. É o que se arranca dele. A frase de Victoria, postada em rede social, diz mais sobre o campeonato do que qualquer resumo: “Nem sempre as coisas acontecem da forma que imaginamos”. É a confissão da alma do competidor.
A glória não está apenas na medalha de ouro; por vezes, ela reside na dignidade com que se carrega o bronze.
Essa verdade ecoou em outros sotaques. No paulista Lauro Chaman, bronze na C5. Na paranaense Jady Malavazzi, que move a bicicleta com os braços e trouxe uma prata na classe WH3. E em Jéssica Messali, que abriu a contagem com um bronze na mesma prova, contra o relógio. Cada um deles disputou uma corrida contra os adversários e outra, mais íntima e permanente, contra o próprio corpo.
Não há como saber, à distância, o que pensaram ao cruzar a linha. A avaliação fria dirá que foi uma campanha sólida, um resultado dentro do esperado. Talvez seja apenas isso. Mas a história do esporte é feita de momentos, não de balanços. E o momento de Huntsville não foi sobre um número — cinco. Foi sobre quatro atletas que transformaram bicicletas em extensões da própria teimosia.
Quem grita por eles? Onde está o seu estádio? Talvez a torcida seja cada um de nós que, por um instante, para e tenta imaginar a força necessária não para vencer, mas apenas para largar.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil