O pênalti de Londres e o fantasma da Copa
Análise · Marcos Tibúrcio A bola na marca da cal, em um amistoso de pré-temporada, pode carregar o peso de um estádio lotado em Copa do Mundo.
Análise · Marcos Tibúrcio
A bola na marca da cal, em um amistoso de pré-temporada, pode carregar o peso de um estádio lotado em Copa do Mundo. Para Bruno Guimarães, carregava. Havia em Londres, num jogo contra o Como, o eco de um outro chute, a memória doída de uma defesa do goleiro norueguês que mandou o Brasil para casa mais cedo. O pênalti, para quem o perde, não acaba quando a rede deixa de balançar. Vira fantasma.
O jogador que veste a camisa do Arsenal, agora, não é o mesmo que vestia a amarela naquele dia. Este custou 75 milhões de libras. Um volante que chega a Londres com a etiqueta de solução, não de promessa. E em sua primeira noite, diante da nova gente, o roteiro lhe oferece a mesma cena do seu maior tropeço. O drama. O futebol, quando quer, tem a ironia de um dramaturgo antigo.
Poderia ter se escondido. Poderia ter deixado a responsabilidade para um garoto da base, como Lewis-Skelly, que marcou o gol no tempo normal. Um amistoso não decide o destino de ninguém. Mas Bruno foi para a bola. Há momentos em que um homem precisa encarar o que lhe assombra, mesmo que seja apenas um ponto branco pintado na grama, a onze metros do gol.
Aquela caminhada, da intermediária à marca fatal, durou mais que os segundos do relógio. Durou o voo de volta da Copa. Durou as manchetes, as críticas, a pergunta silenciosa que todo jogador carrega depois de uma falha daquelas: e se? Ele ajeitou a bola, olhou o goleiro e, por um instante, talvez não visse o arqueiro do Como, mas o da Noruega.
A cobrança convertida não apaga a eliminação. Não devolve o tempo. Mas serve a outro propósito, mais íntimo e talvez mais importante para o futuro. Serve para dizer, a si mesmo antes de aos outros, que o pênalti perdido não é o seu epitáfio. A bola no fundo da rede de um time italiano, numa noite qualquer de Londres, foi um exorcismo.
O campeonato ainda não começou, os pontos não valem, mas um jogador de 28 anos, recém-chegado, precisava daquele gol. O Arsenal não contratou apenas um volante. Contratou um homem que, na primeira chance, mostrou que sabe o caminho de volta.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge