O ônibus de Canindé e os que ainda andam
Crônica · Heitor Graça Tem uma vela que não apaga com vento. Qualquer cearense sabe disso.
Crônica · Heitor Graça
Tem uma vela que não apaga com vento. Qualquer cearense sabe disso. É a vela acesa diante de São Francisco das Chagas, padroeiro de Canindé, aquela chama baixinha e teimosa que sobrevive à corrente de ar das portas do santuário, às mãos tremidas dos velhos, ao choro miúdo das crianças. Sobrevive porque quem a acendeu veio de longe para isso — de ônibus, de pau de arara, de pés no asfalto — e não veio para deixar apagar.
Na manhã deste sábado, um ônibus com mais de quarenta romeiros tombou na CE-456, na localidade de Juá, zona rural de Canindé. Dois mortos. Vários feridos. Uma frase que o rádio repete com a frieza de quem já disse isso outras vezes e vai dizer outras ainda.
Mas antes da frase havia gente dentro daquele ônibus. Gente que acordou cedo, que amarrou o lenço, que pôs o terço no bolso do peito como quem carrega um documento. Gente que talvez tenha dormido no banco de trás com a cabeça encostada no vidro, sonhando com a chegada, com a promessa que levaria para cumprir, com o filho doente que ficou em casa esperando notícia de lá.
Canindé é assim: não se vai por turismo. Vai-se porque se deve alguma coisa ao santo, ou porque se espera dele alguma coisa ainda. A romaria é um contrato oral entre o devoto e o sagrado, firmado em silêncio, guardado no peito durante meses, às vezes anos. O ônibus é só o meio. A estrada, só o intervalo.
Quando o intervalo vira o próprio acontecimento, quando a CE-456 deixa de ser caminho e passa a ser destino involuntário, alguma coisa na lógica da fé vacila por um segundo. Só um segundo. Porque quem sobreviveu vai chegar em Canindé de algum jeito — de ambulância, de carona, de táxi improvisado —, e vai acender a vela mesmo assim. Talvez com as mãos enfaixadas. Talvez com mais razão do que tinha antes.
Os dois que morreram também iam cumprir alguma coisa. Isso não me sai da cabeça enquanto escrevo: eles iam, e não chegaram. E Canindé está lá, com o santuário aberto, com as velas pegando fogo uma na outra como sempre, sem saber que dois dos seus romeiros pararam no meio do caminho e não vão mais entrar pela porta.
A chama baixinha e teimosa continua acesa. Só que agora tem dois nomes que ela não sabe que carrega.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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