O rosto estudantil da guerra de desgaste de Putin
Análise · Clara Verdi Valery Averin não era um soldado. Era um estudante.
Análise · Clara Verdi
Valery Averin não era um soldado. Era um estudante. Sua morte na Ucrânia — confirmada depois que o Exército russo foi buscar recrutas dentro de instituições de ensino — não é um dado estatístico menor. É o índice de algo que os números de baixas, sempre opacos e disputados, raramente conseguem dizer com clareza: a Rússia chegou ao ponto em que a guerra consome mais homens do que o país consegue repor pelos canais convencionais.
Convém lembrar o que antecede este momento. Putin relutou por anos em decretar uma mobilização geral — não por falta de vontade estratégica, mas por cálculo político. A mobilização parcial de setembro de 2022 já havia produzido fissuras visíveis: filas nos postos de fronteira, protestos de mulheres em praças siberianas, uma hemorragia silenciosa de homens em idade militar para Cazaquistão, Geórgia, Finlândia. Cada nova convocação tem um custo interno que o Kremlin mede com cuidado. Recrutar estudantes, nesse contexto, não é uma escalada declarada. É uma escalada disfarçada de voluntariado.
A distinção importa. Quando o Estado vai às universidades oferecer contratos militares — com incentivos financeiros, retórica patriótica e a pressão social difusa que qualquer instituição fechada exerce sobre seus membros —, ele está recrutando sem admitir que recruta. É um mecanismo que preserva a ficção de que a guerra é sustentada por adesão espontânea, enquanto empurra jovens sem experiência de combate para uma frente que está no quinto ano de operações.
O quinto ano. Vale parar nessa contagem. Uma guerra que dura cinco anos transforma não apenas territórios e exércitos, mas a própria sociedade que a sustenta. Os homens que lutavam em 2022 morreram, foram feridos ou exauriram seus contratos. Os que vieram depois também. O que a Rússia enfrenta agora é o problema clássico de toda guerra de desgaste prolongada: a reserva humana não é infinita, e as camadas mais fáceis de mobilizar já foram consumidas. Chegar aos estudantes — população que em qualquer sociedade representa futuro, mobilidade, investimento familiar de longo prazo — é chegar a uma camada que normalmente o Estado poupa, porque sabe o que custa perdê-la.
A morte de Valery Averin confirma o que a campanha de recrutamento nas universidades apenas sugeria: o estudante que assina o contrato não está indo para uma retaguarda administrativa. Está indo para a mesma guerra que já matou dezenas de milhares.
Para a Europa — que acompanha esse conflito com uma mistura de alarme e fadiga —, o recrutamento universitário russo é mais um sinal de que a guerra não está próxima do fim que alguns gostariam de anunciar. Um exército que precisa ir às salas de aula para se recompor é um exército em pressão severa. Mas pressão severa não significa colapso. Significa, historicamente, que a guerra fica mais brutal, não mais curta. Que os comandantes pedem mais para compensar a qualidade com quantidade. Que os recrutas sem treinamento adequado morrem mais depressa — e são substituídos por outros recrutas sem treinamento adequado.
Averin estudava. Agora é uma nota de confirmação em uma lista que o governo russo não publica.
— Clara Verdi, correspondente EuropaClara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Rússia recruta estudantes para compensar perdas na Ucrânia
Fontes: g1 · BBC News Brasil