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Motorista de 71 anos enfrenta noite inesperada

Crônica que acompanha a rotina de um homem que vivencia momentos que não havia planejado.

Motorista de 71 anos enfrenta noite inesperada

Crônica · Heitor Graça

Tinha, muito provavelmente, uma rotina. Talvez um café antes de pegar o volante, talvez o hábito de verificar os espelhos com aquela calma de quem já viu estrada demais para se impressionar com ela. Setenta e um anos é uma idade em que o homem já não dirige por impulso — dirige por memória do corpo, por um saber que mora nas mãos antes de chegar à cabeça.

Na segunda-feira à noite, no quilômetro 166 da Dutra, em Santa Isabel, esse saber não foi suficiente. Um ônibus e um caminhão se encontraram da pior maneira possível, e o motorista morreu. Doze pessoas ficaram feridas, cinco delas em estado grave. A rodovia que costura Rio e São Paulo, que já viu tanta coisa passar por ela, parou mais uma vez para deixar o silêncio entrar.

Eu fico pensando nos passageiros. Naquele momento anterior ao impacto, quando a noite dentro do ônibus era sonolenta e comum — alguém dormindo encostado no vidro, outro com o fone de ouvido, outro olhando o nada lá fora com aquela expressão vaga de quem está entre duas cidades e portanto não está em lugar nenhum. A Dutra à noite tem esse efeito: suspende as pessoas num limbo de asfalto e farol.

E de repente o limbo acabou.

Não há como saber o que o motorista de 71 anos pensou naquele instante, se é que houve instante algum para pensar. Há uma violência específica nos acidentes de estrada que é a da velocidade — ela não deixa cerimônia, não deixa despedida, não deixa a frase terminar. Leva o homem no meio do gesto.

A Dutra registra esse tipo de tragédia com uma frequência que nos acostumou mal. Acostumar mal é diferente de acostumar: a notícia passa, os números são absorvidos, mas alguma coisa resiste a ser digerida. Um motorista de 71 anos que saiu de casa para trabalhar e não voltou é um desses fragmentos que ficam atravessados, sem encaixe possível na lógica do cotidiano.

Do lado de cá da tela, eu leio o número do quilômetro — 166 — e ele me parece arbitrário e definitivo ao mesmo tempo. Como todos os lugares onde a vida decide, sem aviso, virar esquina.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Acidente entre ônibus e caminhão deixa um morto na Dutra

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · UOL