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Mil mortes em junho expõem falha europeia na proteção

Análise · Clara Verdi. A Europa aplicou uma gramática do esquecimento às suas próprias catástrofes com eficiência cirúrgica.

Mil mortes em junho expõem falha europeia na proteção

Análise · Clara Verdi

Há uma gramática do esquecimento que a Europa aprendeu a aplicar com eficiência cirúrgica às suas próprias catástrofes domésticas. A onda de calor de agosto de 2003, que matou cerca de 70 mil pessoas no continente — 14 mil só na França —, foi discutida por anos como anomalia. Exceção. Evento sem precedente que, precisamente por ser sem precedente, não exigia revisão estrutural de nada. Vinte e dois anos depois, a Espanha registra 1.029 mortes atribuídas ao calor em um único mês de junho, com temperaturas ultrapassando os 40 graus, e o número aparece nos noticiários com a naturalidade discreta de quem anuncia o índice de desemprego.

O que chama atenção não é apenas a magnitude — mais de mil mortes em trinta dias, o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior —, mas a velocidade com que esse dado se estabiliza como dado, e não como escândalo. Mil mortes por calor em um país europeu desenvolvido, com sistema de saúde público, com infraestrutura, com protocolos de emergência climática já implementados após 2003. Não é pouco. É, na verdade, uma confissão.

A confissão é esta: os planos de contingência climática que a Europa ostenta como evidência de seriedade política foram desenhados para outra escala de problema. Foram desenhados, talvez, para tranquilizar do que para proteger. Quando as temperaturas ultrapassam sistematicamente o limiar que os modelos consideravam improvável, o protocolo vira ritual.

Morrem, sobretudo, os velhos. Morrem os que vivem sozinhos em apartamentos sem climatização nos andares superiores dos blocos construídos nos anos sessenta e setenta, quando o calor extremo em junho ainda parecia matéria de outro hemisfério.

É aqui que o dado espanhol encontra sua dimensão política mais incômoda. A vulnerabilidade ao calor não é democrática. Ela segue, com precisão quase insultante, as linhas da classe e da idade. A Europa que envelheceu, que precarizou sua habitação popular, que fragmentou seus laços comunitários em nome de uma modernidade que prometia liberdade e entregou isolamento — essa Europa está produzindo mortes que não aparecem nos debates sobre o futuro do continente, mas que são, elas mesmas, um argumento sobre esse futuro.

A Espanha teve a honestidade de publicar o número. Outros países da Europa também foram atingidos pela mesma onda de calor em junho, e os dados comparativos virão com o tempo, como sempre vêm — tarde, parcelados, absorvidos pela rotina do ciclo de notícias. O que raramente vem, porque exige outro tipo de coragem política, é a pergunta que os dados colocam com brutalidade: se já sabemos quem morre, onde morre e por quê, o que exatamente estamos esperando para mudar?

A resposta honesta é que não estamos esperando nada. Estamos contando.

Clara Verdi é correspondente da Xaplin em Paris.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Espanha atribui mais de mil mortes à onda de calor em junho

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.