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Tibúrcio examina treinadores brasileiros como missionários e inimigos

Marcos Tibúrcio avalia a complexa dinâmica de técnicos brasileiros no futebol global, revelando a dualidade entre idealismo e rivalidade profissional.

Tibúrcio examina treinadores brasileiros como missionários e inimigos
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há seis homens em bancos de reserva pelo mundo que falam português com a prancheta na mão. Seis. Eles ensinam o corte, o bloqueio, a manchete que nos deu o ouro. Ensinam em espanhol arranhado no Peru, na Colômbia, em Cuba. Em francês de ocasião nos Camarões. Ensinam, acima de tudo, a nos vencer.

O vôlei brasileiro, acostumado a fabricar pontas e líberos como quem colhe laranja, agora tem uma nova linha de produção: o adversário. E não é um adversário qualquer. É um que conhece os atalhos da nossa alma, as manias de vestiário, o nome do ginásio em Saquarema. Luizomar de Moura, que treina as meninas de Osasco, pegou um avião para Cuba e, depois de quinze anos de arquibancada, pendurou uma medalha de bronze no peito delas. Antônio Rizola, que já havia levantado a Colômbia, agora tenta o mesmo milagre no Peru. São apóstolos de uma escola que se tornou hegemônica demais para caber em si mesma.

Estrangeiro de casa

Chamam a isso “troca de conhecimento”, “desenvolvimento da modalidade”. É uma linguagem de escritório, de federação. Na quadra, a coisa tem outro nome. É um espelho. O Brasil entrará no Maracanãzinho para o Pré-Olímpico e, do outro lado da rede, encontrará Guilherme Schmitz comandando a Colômbia, um técnico que fala nossa língua, que conhece nossas virtudes e, pior, nossos defeitos. É como entregar o mapa da mina ao pirata.

Claro, o leitor mais pragmático dirá que isto apenas confirma a nossa força, que a escola de José Roberto Guimarães é tão potente que transborda as fronteiras. É uma leitura possível, talvez até a correta. Mas há outra, menos confortável. A de que, ao ensinar o mundo a jogar como nós, criamos o antídoto para nosso próprio veneno. Marcos Kwiek está desde 2008 na República Dominicana; já não é um técnico brasileiro por lá, é o técnico *delas*. Formou uma geração que nos olha de igual para igual.

Somos os missionários de um esporte que dominamos. Levamos a palavra, o método, a tática. Celebramos quando o aluno distante, como o de Paulo de Tarso em Camarões, sobe um degrau no ranking mundial. O problema é que, um dia, o aluno se forma.

E a primeira lição que ele vai querer aplicar é contra o velho mestre.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

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Fonte: ge