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São Paulo aprende a conviver com metrô prometido

Crônica sobre o paulistano que aprendeu a não contar com promessas de mobilidade urbana.

São Paulo aprende a conviver com metrô prometido

Crônica · Heitor Graça

Tem uma coisa curiosa no paulistano: ele aprende a não contar com o que foi prometido. Não por amargura, mas por uma sabedoria de quem passou anos ouvindo datas, vendo obras paradas, relendo nas paredes dos canteiros os mesmos dizeres entusiasmados de inaugurações que nunca chegavam. Com o tempo, a cidade foi desenvolvendo um músculo que o carioca não tem — o da expectativa suspensa, aquela postura de "já acredito quando descer a escada rolante".

A Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo foi anunciada há quase vinte anos. Duas décadas em que nasceram crianças que hoje já pegam metrô sozinhas. Em que os cabelos de engenheiros responsáveis pelo projeto foram passando do preto ao grisalho. Em que houve acidentes, empresas que desistiram, novos contratos, mais promessas. E a obra ficou ali, subterrânea e teimosa, cavando seus túneis por baixo de uma cidade que tinha outras urgências na superfície.

Ontem, finalmente, abriu.

Seis estações, um trecho. A estação mais profunda da história do metrô paulistano está lá dentro, enterrada como um segredo que a cidade guardou por anos sem querer. Não sei quantos metros de profundidade — os números ficam na reportagem, que é o lugar deles. O que imagino, e que nenhum comunicado oficial vai descrever com precisão, é a cara de quem desceu pela primeira vez.

Deve ter alguém que trabalha num dos bairros servidos pela linha há doze anos, que fez as contas mil vezes — tantos minutos a menos, uma transferência evitada, chegar antes que a reunião comece. Essa pessoa desceu a escada rolante com a cautela de quem toca um presente que pode ser engano. Olhou o azulejo novo. Sentiu o ar-condicionado que ainda cheira a obra. E esperou o trem com uma expressão que não é de triunfo, nem de alívio — é de alguém que simplesmente não esperava mais, e então a coisa aconteceu.

São Paulo tem muitas histórias assim. Coisas que demoram tanto que quando chegam já mudaram de sentido. O metrô não está inaugurando uma linha: está devolvendo à cidade uma parcela de confiança que ela mesma tinha guardado no bolso de trás, com cuidado, para não perder.

O laranja é uma cor estranha para o metrô. Quente demais para o subsolo. Mas talvez seja exatamente isso — alguma coisa que aquece um pouco o corredor frio de quem aprendeu, com paciência que beira a arte, a esperar.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Linha 6-laranja do metrô de São Paulo é inaugurada após quase 20 anos

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL