Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Kiev sofre ataques cada vez mais frequentes e normalizados

A repetição de ataques em Kiev cria uma perversidade linguística: expressões como 'mega-ataque' banalizam a violência ao transformá-la em rotina.

Kiev sofre ataques cada vez mais frequentes e normalizados

Análise · Clara Verdi

Há uma perversidade específica na expressão "mega-ataque" — não na realidade que ela descreve, mas no fato de que ela já precisa existir. Quando uma guerra dura o suficiente, a linguagem cria hierarquias do horror. O ataque de ontem à noite contra Kiev foi descrito como um dos maiores desde o início do conflito, em 2022. O que isso diz, por subtração, é que existe uma linha de base à qual nos acostumamos — ataques que não merecem mais o prefixo.

A Rússia lançou drones e mísseis contra a capital ucraniana na noite de quarta-feira. A Polônia mobilizou caças. Essa última informação é, tecnicamente, a mais relevante do ponto de vista da arquitetura da segurança europeia — não pelo que aconteceu, mas pelo que o gesto antecipa. A Polônia não mobiliza sua força aérea por reflexo. Mobiliza porque os padrões de voo de determinados projéteis tornam as fronteiras da OTAN uma questão de geometria, não de intenção.

Putin conhece essa geometria com precisão cirúrgica. O ataque desta magnitude — qualquer que seja o balanço final de destruição — não é apenas militar. É uma mensagem enviada simultaneamente a Kiev, a Varsóvia, a Bruxelas e a Washington, em diferentes frequências. Para os ucranianos: a exaustão é um instrumento de guerra. Para os europeus: a contenção tem limites que vocês ainda não testaram. Para os americanos: a equação continua aberta.

A Europa ocidental assistiu às primeiras semanas da invasão com uma comoção que parecia capaz de reordenar décadas de inércia estratégica. Armas foram prometidas, depois enviadas com atraso, depois enviadas em versões rebaixadas, depois renegociadas. Cada concessão foi acompanhada de uma declaração de firmeza. O vocabulário da solidariedade raramente encontrou correspondência na velocidade da logística. Kiev aprendeu a ler esse intervalo.

O que torna este ataque analiticamente distinto não é a escala — que a apuração ainda não quantificou com precisão — mas o momento. Ele ocorre quando as conversações sobre um possível cessar-fogo circulam em diferentes capitais com intensidade renovada, quando a fadiga europeia com o conflito começa a se traduzir em números eleitorais, e quando o governo americano atravessa sua própria instabilidade de orientação. Atacar Kiev com esta força agora é também uma leitura do ambiente político internacional. Putin lê jornais. Ou quem os lê por ele é eficiente.

A mobilização polonesa é o dado que merece atenção nas próximas horas. A Polônia tem sido, desde 2022, o país da OTAN com maior exposição material e simbólica ao conflito — geograficamente, historicamente, demograficamente, com mais de um milhão de refugiados ucranianos em seu território. Quando Varsóvia move caças, o sinal atravessa a Aliança de uma forma que comunicados de imprensa de Bruxelas jamais conseguem.

O horror virou rotina. A rotina, no entanto, não é inerte — ela acumula. E acúmulos têm pontos de ruptura que ninguém consegue prever com precisão, inclusive quem os provoca.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Rússia ataca Kiev com drones e mísseis durante a noite

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL