Manicômio Fiscal Transforma Brasília em Hospício de Terno
O governo criou um sistema de despesas obrigatórias flexíveis, com três camadas de orçamento, que confunde até os técnicos do Tesouro Nacional.
SURURU_
Quando a Contabilidade Perde a Sanidade e o País Vira Um Experimento de Loucura Organizada
Estava eu em um bar em Brasília — aquele tipo de bar que funciona em subsolo, onde os garçons conhecem seu nome antes de você abrir a boca — quando um assessor de deputado começou a me contar sobre a "reestruturação do teto de gastos" com a seriedade de quem explica uma cirurgia cerebral. Ele segurava um copo de uísque com as duas mãos, como se fosse explodir a qualquer momento.
É claro que ia explodir. Não o copo. A realidade.
O sujeito estava falando de um mecanismo tão intrincado, tão absurdamente kafkiano, que fez Hunter S. Thompson parecer um contador de histórias infantis. Basicamente, o governo criou um sistema de "despesas obrigatórias flexíveis" — nota bem a contradição berrante — que permite que elas sejam obrigatórias mas também não sejam, dependendo de que dia da semana você pergunta a um economista do Palácio do Planalto.
A Lógica Que Só Faz Sentido Para Quem Nunca Dormiu
Entenda: existem agora três camadas diferentes de orçamento. Uma é de verdade. Outra é de mentira. A terceira ninguém sabe. Um técnico da Secretaria do Tesouro Nacional que entrevistei (fora do record, claro, porque coitado do homem) confessou que passa oito horas por dia olhando para planilhas que contradizem a planilha anterior. Ele disse isso com uma risada que parecia vir do fundo de um poço abandonado.
Qual é a graça? A graça é que enquanto isso, o Brasil real — aquele onde as pessoas moram, trabalham, fazem filhos — segue quebrado. A máquina estatal agora dedica 40% da sua energia para contar como ela não está quebrando, em vez de simplesmente não quebrar.
"Criamos a contabilidade perpétua," me disse um subsecretário, em tom de quem inventa uma nova droga. "Um número que nunca fecha, mas também nunca abre. É a física moderna."
O Circo Fiscal Com Acrobatas Sem Rede
A coisa fica mais delirante quando você percebe que isso tudo funciona como um mecanismo de teatro político. Os deputados votam em leis que modificam as leis que modificam as leis anteriores, criando uma estratificação tão ridícula de papéis que um arqueólogo futuro pensará que encontrou os arquivos de uma civilização perdida.
Conheci um lobista que me mostrou, em um guardanapo (porque claro, em guardanapo), como uma mesma verba pode ser contada sete vezes diferentes dependendo de em qual "gaveta fiscal" você a coloca. Sete. Vezes. O tipo estava sóbrio, o que fez tudo mais assustador.
É como se o Brasil tivesse pegado a lógica do jogo de três copos dos camelôs de rua e a transformado em política fiscal nacional. Exceto que, neste jogo, a bolinha debaixo do copo é invisível, o copo também é invisível, e ninguém sabe se está ganhando ou perdendo porque o tabuleiro está em Brasília e a gente está aqui no chão.
O Punchline Que Ninguém Pediu
A piada mais sombria? Isso se chama "responsabilidade fiscal". Os mesmos caras que criaram esse Frankenstein contábil saem na televisão falando sobre austeridade, controle de gastos, eficiência administrativa. Com a cara de quem descobriu fogo.
O Brasil não precisa de uma reforma tributária. Precisa de um exorcista.
Quer ir mais fundo?