Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O futebol fecha a porta para o futebol

Análise · Marcos Tibúrcio A Copa do Mundo Feminina bate à porta dos clubes do Rio de Janeiro e encontra uma fechada.

O futebol fecha a porta para o futebol
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

A Copa do Mundo Feminina bate à porta dos clubes do Rio de Janeiro e encontra uma fechada. Não com o barulho de uma briga de vizinhos, mas com o silêncio educado de um argumento empresarial. O Flamengo, dono da casa mais moderna, o Ninho do Urubu, informou à Fifa que não pode ceder o espaço em 2027. A razão, dizem, é a logística: o elenco profissional precisará treinar.

É uma recusa que se entende numa planilha e se estranha na arquibancada. Botafogo, Fluminense e Vasco, vizinhos de cidade e de história, abrem seus portões. Discutem os termos, preparam o terreno. O Vasco oferece São Januário, a colina que já abrigou Messi e a Alemanha antes da final de 2014 e que completará cem anos justamente no ano do Mundial. É um palco que entende seu papel no drama maior, um personagem que sabe a hora de entrar em cena.

A decisão do Flamengo não é um ato de hostilidade, frisa-se. É um sintoma. Um retrato do futebol que se afasta do chão que pisa, que se enxerga como uma corporação multinacional com sede no Rio, e não como parte essencial da alma da cidade. Um clube que, no auge de sua organização, calcula o custo de oportunidade de ser anfitrião e conclui que não vale a pena. A Copa do Mundo, um evento que paralisa o mundo, torna-se um inconveniente no calendário do departamento de futebol.

Não se trata de cobrar um patriotismo de almanaque ou uma generosidade forçada. Trata-se de notar a mudança dos ventos. Houve um tempo em que receber o mundo era uma honra que superava qualquer planejamento. Ceder o campo para uma seleção treinar era uma forma de dizer: o futebol vive aqui. Agora, a mensagem é outra: o nosso futebol vive aqui, e ele não pode ser interrompido.

Enquanto a Fifa mede os gramados do Fluminense e do Botafogo, uma Copa do Mundo inteira descobre que o centro de treinamento mais festejado do país estará ocupado com seus próprios afazeres. É um direito do clube, sem dúvida. Mas é, também, um gesto que empobrece o cenário. Para o futebol que se joga fora das quatro linhas, para a história que se conta além dos resultados, é como dar uma festa de rua e encontrar a janela mais vistosa da vizinhança com as cortinas cerradas.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Fifa visita CTs de clubes cariocas para Copa Feminina 2027

Fonte: ge