Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O Estreito que o Irã fechou — e o que isso custa ao mundo

Análise · Clara Verdi O Estreito de Ormuz tem 33 quilômetros em seu ponto mais estreito.

O Estreito que o Irã fechou — e o que isso custa ao mundo
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O Estreito de Ormuz tem 33 quilômetros em seu ponto mais estreito. Por ali passa, conforme estimativas consolidadas, cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no planeta. Quando o Irã anunciou seu fechamento neste domingo, após dias de bombardeios americanos sobre seu território, não estava apenas executando uma retaliação militar. Estava empurrando uma alavanca que os governos em Teerã guardam há décadas como último argumento — o argumento que transforma uma guerra regional num problema de todo mundo.

O encadeamento dos últimos dias segue uma lógica conhecida, mas não por isso menos perigosa. Os Estados Unidos afirmaram ter atingido mais de 140 alvos militares iranianos em três noites consecutivas, com o objetivo declarado de proteger a navegação comercial no próprio estreito que o Irã agora diz ter fechado. Pete Hegseth, secretário de Defesa americano, escreveu nas redes sociais que "o Irã fez uma má escolha" e que "agora está pagando o preço" — linguagem que Fallaci teria reconhecido imediatamente como a retórica do vencedor antes que o jogo termine. O problema é que o jogo não terminou.

A resposta iraniana não ficou contida ao território americano. A Guarda Revolucionária anunciou ataques a alvos em quatro países do Golfo: Jordânia, Kuwait, Omã e Catar. Cada um desses países abriga, em graus variados, presença militar americana ou infraestrutura logística ligada aos Estados Unidos. O Catar confirmou feridos, incluindo uma criança, por estilhaços. A Jordânia registrou danos materiais. O Bahrein soou sirenes. Os Emirados disseram que interceptaram ameaças fora de suas fronteiras. O que se desenha não é uma troca bilateral entre Teerã e Washington — é a militarização de uma vizinhança inteira.

Há um detalhe que merece atenção: o cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos, segundo o UOL, estava "teoricamente em vigor" quando um incidente com embarcação no estreito detonou a nova escalada. A palavra "teoricamente" carrega o peso de toda a situação. Acordos de contenção que dependem de não haver provocação numa das zonas marítimas mais disputadas do mundo são acordos escritos sobre água.

O fechamento do Estreito de Ormuz não é um gesto simbólico. É a transformação de uma crise de segurança em crise econômica global — e a Europa, que importa energia e exporta diplomacia, estará entre as primeiras a sentir o estreitamento.

O que me chama atenção, olhando de Bruxelas, é o silêncio. Não o silêncio dos governos europeus — esse virá em forma de notas diplomáticas cautelosas e reuniões de emergência do Conselho Europeu. O silêncio que importa é o das instituições multilaterais, do direito internacional, da ideia de que existe uma arquitetura capaz de conter isso. Quando o Catar classifica os ataques iranianos como "grave escalada que complica os esforços para conter as tensões", está dizendo, na linguagem polida da diplomacia do Golfo, que os mecanismos de contenção já não estão funcionando. Que restam apenas as alavancas.

E uma delas tem 33 quilômetros de largura.

Clara Verdi, correspondente Europa — Bruxelas

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Irã ataca países do Golfo e fecha Estreito de Ormuz após bombardeios

Fontes: g1 · UOL

?qual pergunta está viva em você agora?