Mbappé na beira do eterno — e ele ainda não ganhou nada
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma frase de Mbappé que merece ser lida devagar.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma frase de Mbappé que merece ser lida devagar. "Esta equipe não é nem campeã do mundo, nem vice-campeã do mundo." Ele disse isso na véspera de uma semifinal de Copa. O homem que pode se tornar o único jogador além de Cafu a disputar três finais consecutivas do torneio mais assistido da Terra escolheu, neste momento, encolher o peito. Não por falsa modéstia — Mbappé não tem esse hábito. Por necessidade de foco. Por entender que o peso do que está em jogo exige que se afaste do espelho.
O feito que ele persegue, mesmo sem perseguir, é dos mais raros na história quase centenária do futebol mundial. Apenas quatro jogadores disputaram três finais consecutivas de Copa do Mundo. Dois alemães — Matthäus e Littbarski — nos anos 1980. Dois brasileiros — Cafu e Ronaldo — entre 1994 e 2002. Cafu, especificamente, é o único que entrou em campo nas três. E entrou em condições diferentes: titular na França e no Japão, substituto nos Estados Unidos. Mbappé, se a França bater a Espanha nesta terça-feira em Dallas, chegará ao mesmo patamar — mas como titular absoluto nas três edições. O detalhe não é pequeno. É a diferença entre estar presente na história e ser o eixo dela.
Outros dois franceses têm a mesma chance matemática: Dembélé e Lucas Hernandez. Mas Dembélé não jogou a final de Moscou. E Hernandez, titular na Rússia, saiu lesionado ainda na fase de grupos no Catar e sequer chegou à decisão. O trio que poderia existir se desfez ao longo das campanhas, como costuma acontecer com as listas de eleitos. Ficou Mbappé. Quase sempre fica Mbappé.
O que torna tudo isso ainda mais vertiginoso é o contexto geracional. A França que jogou em 2018 era jovem e feroz. A de 2022 perdeu a final nos pênaltis depois de uma virada épica que arrancou o título das mãos argentinas — e não arrancou. Esta de 2026 é, nas palavras do próprio capitão, a equipe com mais potencial. Não a mais forte. Não a campeã. A que projeta futuro. Há algo de melancólico nessa frase, e algo de honesto que raramente se ouve de um craque no auge.
Porque Mbappé chegou à final de 2022 com quatro gols — um em 2018, três no Catar — e saiu sem a taça. O número individual brilha; o coletivo ficou para trás. E é exatamente isso que ele parece recusar agora: a armadilha de ser o maior da Copa sem ser campeão dela. Cafu levantou três troféus ao longo da carreira. Ronaldo fez dois. A marca que Mbappé persegue não vem acompanhada, ainda, de uma taça.
A Espanha espera em Dallas. E a história, como sempre, aguarda do lado de fora do vestiário — indiferente ao que o jogador acha que merece.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge