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A mesa de pôquer de Neymar e o que ela diz sobre tudo

Análise · Marcos Tibúrcio Há uma certa lógica cruel na imagem.

A mesa de pôquer de Neymar e o que ela diz sobre tudo
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há uma certa lógica cruel na imagem. Sete dias depois de deixar o gramado em lágrimas, com 37 minutos disputados em duas partidas e uma Copa do Mundo que prometia ser a última, Neymar sentou à mesa de pôquer em Las Vegas com uma ficha de entrada de dez mil dólares. A World Series of Poker o anunciou com a pompa reservada a celebridades, e o próprio torneio fez questão de contextualizar: "após seu país ser eliminado da FIFA World Cup há cerca de uma semana". A ironia estava no comunicado oficial, sem que ninguém precisasse forçá-la.

O problema não é o pôquer. Jogador tem direito a férias, tem direito a hobby, tem direito à vida que escolheu fora das quatro linhas. Neymar joga cartas há anos e isso não é novidade para ninguém. O problema é o que a sequência de fatos revela quando colocada em ordem: convocação polêmica depois de longa ausência por lesão, 37 minutos em campo ao longo de toda a Copa, uma discussão com o goleiro adversário antes de cobrar pênalti nas oitavas, eliminação, choro no gramado, silêncio — e Las Vegas.

Existe uma distância entre o drama encenado no fim de jogo e a velocidade com que o personagem saiu do palco. Não se exige que o luto dure para sempre. Mas havia, ali, um ator que havia declarado o encerramento de um ciclo, que havia saído carregando a narrativa do adeus, do retorno impossível que se tornou possível, da última chance. E essa narrativa encontrou a mesa de pôquer antes mesmo de completar duas semanas.

A pergunta que fica não é moral — é dramatúrgica. Se a Copa foi o epílogo de uma carreira na seleção, quantos atos aquela cena no gramado tinha de verdade?

O Brasil foi eliminado pela Noruega. Neymar jogou menos de quarenta minutos no torneio inteiro. A CBF terá de responder, nos meses seguintes, por que o convocou em condições físicas que não lhe permitiam sequer uma partida completa. Fernando Diniz, ou quem quer que esteja no banco quando essa discussão amadurecer, terá de explicar o que esperava de um jogador que o próprio corpo já havia tirado de campo antes da bola rolar. Essas são as perguntas que a Copa deixa para o futebol brasileiro — perguntas sérias, com implicações sérias.

Neymar, enquanto isso, está em Las Vegas. É o direito dele. Mas há algo que a cena revela quase sem querer: que o maior jogador de sua geração nunca soube muito bem separar o que era espetáculo do que era jogo. Na Copa, os 37 minutos foram insuficientes para o futebol. A mesa de pôquer, ao menos, tem suas próprias regras — e nela ninguém precisa correr.

Marcos Tibúrcio é chefe de Esporte da Xaplin

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Neymar participa de torneio de pôquer em Las Vegas após eliminação

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil

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