O Estreito como armadilha: quando a paz serve de gatilho
Análise · Clara Verdi Há uma crueldade particular na ruptura de acordos recentes.
Análise · Clara Verdi
Há uma crueldade particular na ruptura de acordos recentes. Não a crueldade da guerra que nunca parou — essa ao menos guarda uma lógica de continuidade —, mas a crueldade do gesto interrompido, do entendimento que durou o tempo suficiente para ser usado como prova de má-fé por ambos os lados. O memorando firmado no mês passado entre Washington e Teerã previa o fim das hostilidades e a administração conjunta do Estreito de Ormuz. Em menos de trinta dias, ele virou munição retórica.
O que aconteceu entre segunda e terça-feira não é, tecnicamente, uma guerra nova. É a reativação de uma gramática antiga: ataques a petroleiros no Estreito, negação de responsabilidade, resposta militar americana, escalada semântica simultânea. O Centcom atingiu mais de oitenta alvos, entre eles sessenta embarcações da Guarda Revolucionária, instalações de lançamento de mísseis e bases militares. O vice-ministro iraniano Kazem Gharibabadi falou em "medidas decisivas". Três navios-tanque do Catar e da Arábia Saudita foram atingidos em vinte e quatro horas. Não houve mortes. Por enquanto.
O Estreito de Ormuz não é apenas uma rota. É o ponto onde cerca de um quinto do petróleo mundial transita por um corredor de pouco mais de trinta quilômetros de largura navegável. Quem controla a ameaça ali — não o controle em si, mas a ameaça — controla uma alavanca sobre a economia global. O Irã sabe disso há décadas. Os EUA também. O que muda com os bombardeios desta terça não é a geometria de poder; é a velocidade com que o acordo de maio se tornou obsoleto.
O Departamento do Tesouro revogou a isenção de sanções que permitia ao Irã exportar petróleo — a mesma isenção que havia sido concedida como parte do memorando. Período de transição até 17 de julho. A sequência das horas importa: a revogação veio antes do anúncio da ofensiva militar.
Isso muda a leitura do episódio. Os ataques aos petroleiros foram o pretexto imediato, mas a decisão econômica que os precedeu sugere que Washington já havia decidido encerrar a janela diplomática antes de justificá-la militarmente. O Ministério iraniano foi preciso ao falar em "má-fé, inconsistência e falta de confiabilidade" — independentemente de quem atacou os navios, o enquadramento americano já estava construído. A Guarda Revolucionária forneceu o casus belli; o Tesouro já havia preparado o terreno.
Da perspectiva europeia, o silêncio é o dado mais revelador desta manhã. Catar e Arábia Saudita condenaram os ataques às suas embarcações. Omã está implicada pela própria arquitetura do memorando, que previa sua participação na administração conjunta do Estreito. As capitais europeias, que dependem do Golfo para uma fatia significativa de seu abastecimento energético, ainda não encontraram a frase certa. Encontrarão tarde, como de costume — depois que o fato já moldou o próximo fato.
O que se assiste aqui não é um recomeço de conflito. É a demonstração de que o acordo de maio foi, desde sua assinatura, um intervalo mais do que uma solução. Intervalos terminam. O problema é que desta vez ele terminou antes de alguém ter tido tempo de construir o que viria depois.
Clara Verdi é correspondente da Xaplin em Bruxelas.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: g1 · BBC News Brasil