O domingo que não chegou
Crônica · Heitor Graça Pela janela, este domingo em Copacabana tem a cara de sempre.
Crônica · Heitor Graça
Pela janela, este domingo em Copacabana tem a cara de sempre. Tem a senhora do prédio em frente que molha as plantas na jardineira. Tem o rapaz do andar de baixo que afina o violão na varanda — sempre um lá menor que teima em desafinar. E tem o cheiro de café novo que sobe e se mistura ao da maresia, uma combinação que faz a gente acreditar que o dia, por pior que possa ter sido a noite, recomeçou direito.
O sol bate na calçada, morno, e já vejo as primeiras famílias descendo para a praia, as crianças armadas de baldinhos coloridos, os pais carregando o peso do mundo em cadeiras e isopores. Domingo. É um dia que promete pouco e, na maior parte das vezes, cumpre.
Fico sabendo, entre um gole de café e outro, que um ônibus não chegou. Vinha de Belo Horizonte, descendo a serra para desaguar aqui. Trazia quarenta e tantas pessoas para este mesmo sol, para este mesmo domingo que agora observo. A viagem delas acabou em Petrópolis, na curva de uma notícia breve, dura. Oito não verão nem este nem outro domingo.
Penso nos planos que viajavam naquele ônibus. Talvez um fim de semana para molhar os pés no mar, um encontro marcado no Posto 6, uma visita a um parente que já não viam há tempos. Malas pequenas, com a roupa de banho por cima. Uma expectativa de chegar, de respirar este ar salgado, de se sentir, por um instante, parte desta confusão bonita à beira-mar.
O rapaz do violão acertou o lá menor. A senhora das plantas recolheu o regador. O domingo deles segue seu curso lento, ordinário. Mas para os passageiros daquele ônibus, o domingo simplesmente não aconteceu. Ficou perdido na serra, junto com os bilhetes de passagem amassados e as promessas de um mergulho que o mar nunca recebeu.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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Fontes: CNN Brasil · UOL