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Temporal desabou sobre a região no domingo à tarde

Crônica de Heitor Graça sobre um domingo marcado por chuva intensa que surpreendeu moradores da região.

Temporal desabou sobre a região no domingo à tarde

Crônica · Heitor Graça

Eram pouco mais de duas da tarde quando o barulho chegou antes da notícia. No Rio, o som de helicóptero já é paisagem sonora, como o latido do cachorro do vizinho ou o funk que escapa da janela do terceiro andar. A gente aprendeu a não olhar pra cima.

Desta vez, alguém deveria ter olhado.

Seis pessoas morreram no domingo quando dois helicópteros colidiram sobre a cidade. O luto ainda estava fresco quando a Anac foi à público confirmar o que, nessas horas, a gente já pressente antes de ler: havia irregularidade. O aparelho de prefixo PR-DJJ cedia horas de voo à prefeitura do Rio sem a devida autorização do órgão regulador. O contrato existia na prática. No papel, não.

Existe uma palavra bonita para isso que o carioca conhece de cor: gambiarra. A gente a usa com afeto quando fala de encanamento, de extensão elétrica, de adaptador de tomada. É a nossa poesia do improviso. Só que há lugares onde a gambiarra não cabe — e um deles fica a quatrocentos metros de altitude, entre duas toneladas de metal e o chão.

O que me fica, passado o primeiro impacto, não é raiva. É aquela tristeza mansa de quem reconhece o roteiro. A irregularidade não nasceu no domingo. Ela foi sendo construída aos poucos, em reuniões cordiais, em e-mails sem resposta, em formulários que esperavam protocolo enquanto as hélices giravam sem permissão sobre os telhados da cidade. Alguém assinou algo que não devia. Alguém não assinou o que devia. E o domingo foi cobrar.

Seis pessoas embarcaram naquele helicóptero ou no outro sem saber que carregavam consigo o peso burocrático de uma autorização que não existia. Elas não tinham como saber. Não é obrigação de passageiro checar se o aparelho está regular junto à Anac. É obrigação de quem opera, de quem contrata, de quem fiscaliza.

O céu do Rio é lindo. Quem já sobrevoou a cidade sabe que há poucos espetáculos comparáveis — a Lagoa lá embaixo, o Cristo de braços abertos como se quisesse abraçar tudo aquilo de uma vez. É um privilégio caro e, como qualquer privilégio, carrega responsabilidade proporcional.

Hoje o barulho do helicóptero chegou de novo pela janela. Desta vez, olhei pra cima.

Heitor Graça

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Helicóptero em colisão no Rio operava irregularmente, diz Anac

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL