A aritmética paralela do Ceará
Análise · Luciano Aragão Metade dos eleitores do Ceará aprova a gestão de Elmano de Freitas. A mesma metade diz que ele merece a reeleição.
Análise · Luciano Aragão
Metade dos eleitores do Ceará aprova a gestão de Elmano de Freitas. A mesma metade diz que ele merece a reeleição. A matemática, contudo, não fecha nas urnas. O governador do Partido dos Trabalhadores, que tem 52% de aprovação, recolhe apenas 33% das intenções de voto, segundo a pesquisa Quaest divulgada na quinta-feira. Seu adversário, o ex-ministro Ciro Gomes, hoje no PSDB, marca 43%. Uma distância de dez pontos percentuais que o Palácio da Abolição terá dificuldade em explicar durante o café da manhã.
O problema do governador não é um detalhe de campanha, mas um dado estrutural. Sua rejeição é a mais alta entre os principais nomes: 39% dos eleitores afirmam que não votariam nele de jeito nenhum. Ciro Gomes e o senador Eduardo Girão (Novo) empatam no quesito, com 32%. Um governante em exercício ser mais rechaçado que um ex-candidato à Presidência conhecido pelo temperamento é um feito raro. Principalmente quando o presidente da República, seu principal cabo eleitoral, tem 55% das intenções de voto no estado.
A candidatura de Elmano de Freitas foi uma solução encontrada em 2022 para pacificar a base do governo, após o ruidoso rompimento entre os irmãos Ferreira Gomes e o PT. Cid Gomes, então no PDT, permaneceu na aliança. Ciro Gomes, seu irmão, saiu atirando. A aposta do Palácio do Planalto para 2026 foi dobrar a dose da conciliação, atraindo Cid Gomes para o PSB e oferecendo-lhe a vaga ao Senado na chapa da reeleição. O movimento visava isolar Ciro, transformando-o numa figura periférica no xadrez cearense.
Os números da Quaest sugerem que a estratégia produziu um efeito inverso. Ciro Gomes, abrigado no PSDB e apoiado pelo PL, não apenas sobreviveu ao isolamento como se tornou o polo aglutinador da oposição. Enquanto isso, a aprovação do governador não se converte em voto. No jargão dos operadores políticos de Brasília, a gestão de Elmano de Freitas tem um problema de “transmissão”. O motor funciona, as rodas não giram na mesma velocidade.
A simulação de segundo turno agrava o diagnóstico. Ciro Gomes amplia a vantagem para 13 pontos, vencendo por 48% a 35%. O petista permanece estagnado. Os 10% de eleitores indecisos nesse cenário são a única margem de manobra para uma virada. O Ceará, laboratório político do lulismo por duas décadas, pode estar testando agora uma fórmula para derrotá-lo.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Ciro Gomes lidera corrida ao governo do Ceará, aponta Quaest
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · UOL