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Falta de água em prédio deixa moradores sem acesso

Crônica sobre o dia em que um morador do terceiro andar encheu todas as panelas com água antes de faltar o abastecimento.

Falta de água em prédio deixa moradores sem acesso

Crônica · Heitor Graça

O senhor que mora no terceiro andar encheu todas as panelas que tinha. Não sei o nome dele, mas conheço o tipo: o que age antes de reclamar, o que guarda água como guardava carta de amor, em vasilha funda e com tampa. Enquanto o resto do prédio ainda dormia ou tomava café sem saber, ele já havia entendido o recado que a torneira deu — um gorgolejo, um suspiro, o nada.

Em pelo menos treze bairros de Belo Horizonte, o domingo amanheceu assim: seco. A Copasa confirmou que ladrões levaram os cabos da fiação de uma unidade de bombeamento, e o sistema, sem corrente para empurrar a água morro acima, simplesmente parou. O furto de cabo é uma das formas mais banais e mais cruéis de crime urbano — invisível ao noticiário grande, devastador no cotidiano pequeno. Quem rouba cabo não vê o rosto de quem abre a torneira.

Mas o domingo continuou. As crianças querendo banho. O almoço de família que não se desmarca por decreto de abastecimento. A sogra que já chegou. A carne marinando desde sábado. A vida doméstica tem uma teimosia bonita — ela insiste mesmo quando a infraestrutura desiste.

Alguém foi à padaria com a garrafa vazia, de um jeito que só faz sentido para quem conhece a geometria dos imprevistos. A vizinha do fundo esquentou água mineral para lavar louça e não achou exagero nenhum nisso. O menino que lavaria o carro ficou sem pretexto e foi jogar bola. Talvez tenha sido o melhor domingo da semana dele.

Há uma certa pedagogia involuntária no dia em que a torneira cala. A gente aprende o peso exato da água — que é leve, e que só entendemos isso quando ela some. Aprende que conforto não é luxo, é infraestrutura. E aprende, também, que alguém decidiu levar um cabo embora numa madrugada de sábado, sem imaginar as panelas que seriam enchidas, os planos revistos, os domingos reescritos de última hora em treze bairros de uma cidade que não parou, mas teve de se virar.

O senhor do terceiro andar lavou o rosto com o que guardou. Depois, presumo, foi ler o jornal na varanda com aquela calma de quem já resolveu o problema antes de todo mundo acordar. Há pessoas assim. A cidade funciona por causa delas — não dos cabos.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Furto de cabos deixa 13 bairros de BH sem água neste domingo

Fontes: g1 · CNN Brasil