Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Europa Central enfrenta desafios climáticos históricos

A Europa Central — Alemanha, Polônia, Hungria e República Tcheca — enfrenta paradoxo climático apesar de sua influência histórica.

Europa Central enfrenta desafios climáticos históricos

Análise · Clara Verdi

Há uma ironia pouco comentada no fato de que a Europa Central — Alemanha, Polônia, Hungria, República Tcheca — seja agora o epicentro de ondas de calor que até uma geração atrás seriam classificadas como anomalia estatística. É precisamente a região que industrializou o mundo, que queimou carvão por dois séculos como se o céu fosse um depósito sem fundo, que hoje coloca 191 milhões de pessoas sob temperaturas acima de 35 graus num único domingo de junho.

Não é castigo. É física.

O número — 191 milhões de pessoas — merece ser lido com atenção porque tende a ser consumido como dado espetacular e depois esquecido. É mais do que a população do Brasil em 2010. É quase um quarto da Europa inteira atravessando um único dia de calor extremo simultaneamente, em países que não foram construídos para isso: arquitetura pesada, pouco ar-condicionado nas residências, redes de saúde que ainda tratam ondas de calor como exceção sazonal e não como condição estrutural do verão europeu contemporâneo.

A Alemanha é o caso mais revelador. O país que mais debateu a Energiewende, a transição energética, que fechou suas últimas usinas nucleares num gesto ao mesmo tempo corajoso e mal calculado, que exportou por décadas a gramática do ambientalismo institucional — esse país hoje sufoca. Não há contradição nisso; há consequência. A política climática europeia sempre foi mais sofisticada no discurso do que na velocidade. A distância entre o que a UE prometeu em metas e o que os estados-membros entregaram em estrutura de adaptação é onde moram esses 191 milhões de corpos aquecidos.

A Europa sabe nomear a crise climática com uma precisão técnica admirável. O que ela ainda não aprendeu é a viver dentro dela.

Há também uma dimensão de classe que os números agregados escondem. Quem sofre o calor extremo em Varsóvia ou em Budapeste não é quem debate política climática em Bruxelas. São os apartamentos sem isolamento térmico nos blocos de concreto socialista que sobreviveram à queda do Muro; são os trabalhadores de armazéns logísticos nas periferias de Leipzig; são os idosos sozinhos em cidades médias polonesas onde o calor de 2003 já deixou cicatrizes e onde cada verão seguinte testa os limites do que o Estado consegue oferecer em resposta.

A Europa que observo daqui — com o afeto de quem cresceu na sua periferia afetiva e a distância de quem nunca precisou acreditar em sua excepcionalidade — é um continente que ainda se relaciona com o clima extremo como se fosse visitante, e não morador permanente. O calor deste domingo vai passar. O próximo virá mais cedo, durará mais, será mais intenso. A questão não é mais se a Europa está preparada. A questão é se ela ainda acredita que preparar-se é possível sem reconfigurar, de modo profundo, a maneira como organiza sua vida coletiva.

191 milhões de pessoas num domingo é um número. O que ele mede, na verdade, é o tamanho do atraso.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Calor extremo atinge 191 milhões de europeus neste domingo

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.