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O céu desligou o interruptor

Crônica · Heitor Graça Da janela do meu apartamento, o céu de Copacabana costuma ser um espetáculo previsível.

O céu desligou o interruptor
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Da janela do meu apartamento, o céu de Copacabana costuma ser um espetáculo previsível. Tem o azul insistente dos dias de sol, o cinza leitoso das manhãs de ressaca e, ocasionalmente, aquela cor de chumbo que promete um temporal decente. Mas na tarde daquela quarta-feira, o céu não estava de cor nenhuma. Estava em movimento. As palmeiras da orla, que normalmente acenam com uma elegância entediada, vergavam-se como se implorassem por misericórdia. Um toldo verde, desses de banca de jornal, levantou voo sem pedir licença e desapareceu por trás de um prédio. Parecia coisa de cinema, até que a luz do abajur piscou, hesitou e se foi.

O silêncio que se seguiu não foi um silêncio de paz. Foi um silêncio pesado, preenchido pelo uivo do vento e pela súbita ausência do zumbido da geladeira, da melodia distante de uma televisão vizinha, de toda a trilha sonora que nos conforta com a ilusão de que tudo funciona como deveria. Por um momento, a cidade inteira prendeu a respiração. A energia, essa mágica moderna que tomamos por garantida, havia sido cassada.

Pensei nos que estavam no meio do caminho. No sujeito que embarcou no metrô no Centro, sonhando com a Barra da Tijuca, e encontrou seu destino suspenso em um túnel escuro no Leblon. Pensei nos aviões dando voltas no ar, seus pilotos recebendo a notícia de que esta cidade, naquele momento, não era um lugar seguro para pousar. A ventania, com seus cem quilômetros por hora, não era apenas um fenômeno meteorológico; era um lembrete brusco da nossa dependência de fios, cabos e sistemas.

Quando a luz voltou, pouco antes das seis, foi como se alguém tivesse ligado o interruptor do mundo novamente. A geladeira suspirou aliviada. As luzes dos prédios em frente acenderam, uma a uma, como velas em um bolo de aniversário gigante e desordenado. Olhei para a rua. As pessoas saíam das portarias, olhavam para o céu já mais calmo, trocavam duas ou três palavras sobre o susto. Ninguém falava da falha externa ao sistema ou do Estágio Dois decretado pela prefeitura. Falavam do calor que passou, da árvore que caiu na outra quadra, do susto que foi. E, por um breve instante, todos parecíamos vizinhos da mesma varanda, comentando a pequena aventura de ter visto o Rio apagar e acender outra vez.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Ventania no Rio causa apagão e paralisa transportes

Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo