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Ancelotti não muda estrutura do Brasil, mesmo com poder para isso

Desde o início da Copa, uma pergunta ronda os bancos de reserva: por que Ancelotti mantém as mesmas escolhas táticas?

Ancelotti não muda estrutura do Brasil, mesmo com poder para isso

Análise · Marcos Tibúrcio

Há uma pergunta que ronda os bancos de reserva desde que a Copa começou, e ela volta com força nesta quarta-feira, no Estádio de Miami: para que serve a última rodada da fase de grupos quando uma seleção já garantiu sua classificação? A resposta fácil é "para nada". A resposta honesta é mais complicada — e é justamente aí que Carlo Ancelotti escolheu ficar.

O técnico italiano anunciou que não vai mudar o esquema da Seleção Brasileira diante da Escócia. Sem rodízio de elenco, sem laboratório de variações, sem o repouso estratégico que qualquer treinador de Copa conhece de cor. A decisão diz mais sobre a filosofia de Ancelotti do que qualquer entrevista coletiva poderia dizer. Ele acredita que time que joga bem não se senta — e que ritmo de jogo não se estoca no banco.

A imagem de Matheus Cunha comemorando com Vinicius Junior e Lucas Paquetá já circula como símbolo de que algo funciona nesse grupo. Três jogadores de perfis distintos, de clubes distintos, de histórias distintas, encontrando-se dentro de campo. Isso não nasce de treino tático. Nasce de repetição com significado, de jogos reais, de pressão real. Ancelotti parece saber disso melhor do que os que pedem a ele que pouse o time numa poltrona até as oitavas.

A Escócia, por sua vez, chega a Miami carregando o peso específico de quem tem pouco a perder e muito a provar. Seleções nessa condição são as mais perigosas do mundo — não porque sejam melhores, mas porque jogam sem o travão do medo. Cada bola disputada contra o Brasil é, para um jogador escocês, uma história que ele vai contar pelo resto da vida. Esse tipo de motivação não aparece nas planilhas de desempenho, mas aparece nos primeiros vinte minutos de jogo, quando o time mais forte ainda está aquecendo o motor.

O Brasil que Ancelotti construiu até aqui tem consistência, mas ainda não tem a cara de uma seleção que sabe ganhar quando está mal. Esse rosto só aparece quando o adversário empurra de volta.

É por isso que este jogo importa mais do que parece. Não pela classificação, não pela pontuação, não pela diferença de saldo. Importa porque o futebol tem memória muscular — e a memória muscular de uma Copa se constrói rodada a rodada, inclusive nas que parecem dispensáveis. Uma seleção que entra em campo com descaso em qualquer momento do torneio carrega esse descaso consigo até quando o descaso custa caro.

Ancelotti, ao manter o esquema, está fazendo uma aposta silenciosa: que este Brasil tem repertório suficiente para jogar bem sem precisar do susto. Que Vinicius, Cunha, Paquetá e os demais são capazes de competir com seriedade mesmo quando o resultado, no papel, já não exige tanto deles. É uma aposta no caráter do grupo, não no talento — porque talento ninguém duvida. O caráter, a Copa ainda está testando.

Miami, esta noite, vai cobrar a resposta.

*Marcos Tibúrcio*

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil enfrenta Escócia na última rodada da fase de grupos da Copa

Fontes: g1 · ge