Copa mudou de tamanho e regras também mudam
Numa última rodada de fase de grupos, o futebol deixa de ser esporte e vira aritmética pura.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um momento específico, numa última rodada de fase de grupos, em que o futebol deixa de ser esporte e vira aritmética. O atacante para de pensar em gol e começa a pensar em saldo. O técnico olha para o lado, não para frente. A arquibancada, que veio ver jogo, assiste a uma equação. A Copa do Mundo de 2026 — com seu novo formato de 48 seleções, grupos de três times e apenas um jogo decisivo para fechar cada chave — transformou esse momento numa constante. Não uma exceção. O eixo.
Com grupos de três, toda última rodada tem potencial de empate matemático. Dois times que terminam com a mesma pontuação, o mesmo saldo, o mesmo número de gols marcados são uma possibilidade real, não um acidente estatístico. E aí entram os critérios de desempate — uma hierarquia de regras que vai, passo a passo, separando o classificado do eliminado quando o placar não foi suficiente para resolver a questão com a brutalidade necessária.
O caso de Brasil e Marrocos é o tipo de situação que esse formato produz com intenção. Duas seleções num mesmo grupo, com trajetórias que podem convergir para um número igual de pontos, e aí o regulamento assume o papel que, em outros tempos, caberia ao jogo. Quem marcou mais? Quem levou menos? Quem ganhou o confronto direto? São perguntas legítimas — mas são perguntas de contabilidade, não de futebol.
A Copa ficou maior. Mais países, mais jogos, mais mercado. O que ninguém combinou com o torcedor é que ela ficaria também mais técnica na pior acepção do termo — não no sentido de jogadores melhores, mas de regulamentos mais determinantes.
Isso não é demérito do torneio. É consequência de uma escolha. A FIFA expandiu a competição com critérios que precisam existir — sem eles, o caos seria ainda maior. O problema é que critérios de desempate são, por natureza, substitutos do resultado. Eles operam quando o campo não deu resposta. E quanto mais complexo o formato, mais frequente essa ausência de resposta.
No velho grupo de quatro, a última rodada resolvia. Dois jogos simultâneos, quatro times em campo, e a combinação de resultados escrevia a história. Tinha drama, tinha trapaça tática, tinha times jogando para o empate mútuo — o que a FIFA chama de "atitude anticoncorrencial" e os holandeses chamam de Disgrace of Gijón. Era feio. Era humano. Era futebol.
Agora, com três times por grupo, um único jogo fecha a fase. E se ele terminar com dois times matematicamente iguais, a Copa de 2026 entregará sua classificação para uma lista de critérios que o torcedor médio não decorou e o jogador não controla dentro de campo. Esse é o paradoxo central do novo formato: ao tentar incluir mais nações no torneio — intenção genuinamente democrática —, a competição criou situações em que a classificação pode ser decidida por um detalhe burocrático que não tem cheiro de grama nem barulho de arquibancada. Tem cheiro de ata de reunião.
O futebol sempre sobreviveu às suas próprias contradições. Vai sobreviver a essa também. Mas é bom que o torcedor saiba: nessa Copa, entender o regulamento não é curiosidade. É necessidade de sobrevivência.
Marcos Tibúrcio — Chefe de Esporte, XaplinMarcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge