Brasil chega à Copa sem preparação adequada
Após quatro treinadores e trinta e sete jogos, a seleção apresenta desempenho inconsistente: dezessete vitórias, dez empates e dez derrotas.
Análise · Marcos Tibúrcio
Quatro treinadores. Trinta e sete jogos. Dezessete vitórias, dez empates, dez derrotas. Cinquenta e quatro vírgula cinco por cento de aproveitamento. São números que, lidos assim, frios, parecem o extrato bancário de alguém que não consegue juntar dinheiro para a viagem. O Brasil chegou à Copa do Mundo de 2026 com as contas no vermelho.
É o pior ciclo desde 1994. A frase tem peso. Desde 1994 o Brasil ganhou duas Copas — a própria de 94 e a de 2002 — e chegou a outras duas finais. Três décadas de hegemonia moral sobre o torneio, de uma presença que intimidava antes do apito inicial. Esse capital foi sendo gasto, parcela por parcela, desde a tarde de Belo Horizonte em 2014. E o que resta, hoje, é uma seleção que trocou de técnico como quem troca de camisa — quatro vezes em um ciclo de quatro anos — e que não venceu sequer um título no período.
Há uma tentação, que o material já antecipa, de buscar consolo nos precedentes: a seleção de 94 chegou ao torneio com instabilidade, trocou de treinador, carregava o trauma de 82 e 86, e foi campeã. A de 2002 viajou para o Japão e a Coreia com um técnico interino, uma geração em transição e as cicatrizes de 98, e foi campeã também. O argumento tem um fundo de verdade — e um fundo de autoengano.
Em 94, havia Romário. Em 2002, havia Ronaldo. Havia, nos dois casos, um jogador capaz de resolver o irresolúvel, de transformar um empate em vitória por pura força de vontade individual. O futebol, que é drama antes de ser sistema, às vezes se dobra diante de um homem assim. A pergunta que o Brasil de 2026 ainda não respondeu — não nos jogos, não na escalação, não na prancheta de nenhum dos quatro técnicos — é: quem é esse homem agora?
Instabilidade de comissão técnica não mata seleção. O que mata é chegar sem identidade — sem saber o que se quer ser dentro de campo quando o jogo aperta.
Quatro treinadores em um ciclo não é apenas sinal de crise administrativa. É o retrato de uma confederação que não sabe o que quer do futebol que gerencia. Cada troca de comando é, também, uma troca de ideia. E quando as ideias se alternam rápido demais, o que fica é o vazio — jogadores que aprenderam três sistemas diferentes e dominaram nenhum completamente.
A Copa começa em 11 de junho, nos Estados Unidos, no México, no Canadá. O Brasil está lá, como sempre esteve. Mas há diferença entre estar presente e estar pronto. Há diferença entre ter passaporte e ter argumento.
Em 94 e em 2002, o Brasil chegou em crise e saiu campeão. É verdade. Mas naquelas ocasiões, a crise era de gestão. Desta vez, a crise é de identidade. E essa, nenhuma virada de placar resolve por si só.
*Marcos Tibúrcio, chefia de Esporte*Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge