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O apito que ninguém ouviu no subúrbio

Crônica · Heitor Graça No banco de reservas de um campo de várzea, um menino de uns dez anos segurava a camisa do time com as duas mãos, como quem…

O apito que ninguém ouviu no subúrbio
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

No banco de reservas de um campo de várzea, um menino de uns dez anos segurava a camisa do time com as duas mãos, como quem segura uma promessa. Eu não estava lá, claro. Mas sei que ele estava, porque esse menino sempre está, em todo campo de futebol do Rio de Janeiro, em toda divisão, em todo domingo de manhã com grama molhada e goleiro que trabalha de segunda a sábado.

A Polícia Civil do Rio deflagrou nesta segunda-feira a terceira fase da Operação VAR, investigando manipulação de resultados na Série B do Campeonato Carioca e lavagem de dinheiro. Dois jogadores foram alvo da ação. Terceira fase quer dizer que já havia uma primeira e uma segunda, quer dizer que o assunto tem raízes, quer dizer que alguém, em algum vestiário de algum clube pequeno desta cidade, ficou sabendo do combinado antes do apito inicial.

A Série B do Carioca é o lugar onde o futebol ainda tem cheiro de pipoca e ingresso barato. É onde o volante de trinta e dois anos tenta mais dois ou três anos de carreira antes de virar motorista de aplicativo. É onde o técnico ganha menos do que o auxiliar de qualquer empresa mediana e mesmo assim vai à prancheta com seriedade de cirurgião. É, em resumo, o lugar onde o esporte ainda não tem glamour suficiente para esconder o que é: gente.

E é exatamente aí que dói. Não na Série A, onde o dinheiro circula aberto e a corrupção, quando aparece, parece quase lógica dentro de uma lógica já torta. Dói na Série B porque ninguém esperava que valesse tanto a pena trair aquilo.

O menino da camisa larga não sabe de operação nenhuma. Ele viu o time perder no último sábado e achou que era falta de treino, falta de sorte, falta de um atacante mais veloz. Não passou pela cabeça dele que a derrota podia ter sido negociada em aplicativo de mensagem, com cifra combinada e resultado acertado antes da escalação.

Há crimes que a lei pune e há crimes que ficam. Este fica no rosto de quem acreditou sem ser avisado de que não devia.

O apito final soou. O menino ainda segurava a camisa.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Polícia investiga manipulação de resultados na Série B do Carioca

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL