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Notícia do vento que vai chegar

Crônica · Heitor Graça Dona Eulália, a vizinha do 804, deixou um bilhete debaixo da minha porta.

Notícia do vento que vai chegar
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Dona Eulália, a vizinha do 804, deixou um bilhete debaixo da minha porta. Escrito em papel de pão, com a letra caprichada de quem aprendeu a desenhar as palavras: “Seu Heitor, tem uma goteira vindo lá de cima. Favor ver”. Não era uma ordem, era um pedido de socorro caligráfico. E, claro, a goteira não era dela, mas minha.

Subi até a cobertura para inspecionar a laje, o céu de Copacabana cinzento e pesado como uma consciência culpada. O problema era um cano teimoso, um filete d’água insistente. Enquanto procurava a origem do vazamento, meu celular vibrou com uma mensagem de São Paulo. Era meu irmão: “Aqui vai cair o mundo. Já guardei os vasos da varanda”.

Ele me mandou a notícia. Uma frente fria, ventos que podem chegar a 90 quilômetros por hora, Defesa Civil, Gabinete de Crise. Nomes graves para uma coisa que, no fundo, é apenas o ar em fúria. Fiquei imaginando a cena. As árvores da metrópole, acostumadas ao barulho dos carros, tendo que lidar com o assobio de uma ventania capaz de arrancar galhos e destelhar casas. Um vento que não pede licença.

Pensei no meu irmão, metódico, recolhendo os vasos de samambaia e guardando-os na área de serviço. Um pequeno ato de ordem diante da iminência do caos. É o que fazemos. O Gabinete de Crise se reúne em alguma sala com mapas e telefones. Meu irmão se reúne com seus vasos. Eu, aqui no Rio, me reúno com um cano rachado e a preocupação com uma infiltração no teto da vizinha.

Cada um tem a tempestade que merece, ou a que lhe cabe. Lá, um vento que pode derrubar postes. Aqui, uma goteira que pode manchar a pintura. Resolvi o problema com um pedaço de fita isolante, uma solução provisória, como quase todas as nossas soluções. Desci e bati na porta de Dona Eulália. Ela abriu um palmo, desconfiada. “Acho que estancou, minha senhora.” Ela sorriu, um sorriso pequeno. O céu continuava fechado, mas no corredor do oitavo andar, por um instante, o tempo abriu.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

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Fonte: Agência Brasil