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Neymar fica fora da Copa América; Brasil enfrenta desfalque

Análise de Marcos Tibúrcio sobre a ausência recorrente de Neymar em competições decisivas e o impacto para a seleção brasileira.

Neymar fica fora da Copa América; Brasil enfrenta desfalque

Análise · Marcos Tibúrcio

Há uma cena que se repete na história de Neymar e que já ganhou a forma de uma liturgia: a Copa começa, e ele não está. Não está em campo, não está nos treinos coletivos, está em algum lugar entre a mesa do fisioterapeuta e a promessa de semana que vem. Carlo Ancelotti, na véspera da estreia do Brasil contra Marrocos, confirmou o que o silêncio já anunciava — espera o jogador de volta aos treinos apenas na próxima semana.

A palavra "espera" tem peso próprio. Ancelotti não disse "terá". Não disse "está garantido". Disse que espera. É a linguagem da incerteza vestida de otimismo profissional, que todo técnico aprende a usar quando o assunto é delicado demais para a franqueza.

O Brasil joga neste sábado. Neymar assiste. Essa frase, em 2026, não é mais chocante — e é exatamente aí que mora o problema. A ausência deixou de ser surpresa e virou dado. O maior nome do futebol brasileiro na última década e meia carrega, junto com os dribles e os gols, um currículo de cotas perdidas, estreias adiadas, Copas vividas na meia-luz da fisioterapia.

Em 2014, saiu de campo carregado em Belo Horizonte. Em 2022, no Catar, levou pancada na estreia e virou dúvida por semanas. Agora, em 2026, sequer chega ao primeiro jogo. O padrão não é azar — é o custo acumulado de um corpo que carregou durante anos o peso de um país inteiro.

Ancelotti tem diante de si um problema que vai além do futebol. Há uma questão de gestão de expectativa — a de uma seleção que precisa se apresentar ao torneio com identidade própria, não como sala de espera para o retorno de uma estrela. O Brasil que entra em campo contra Marrocos precisa funcionar como time, não como esboço.

E é justamente aí que a ausência de Neymar pode, paradoxalmente, revelar algo útil. Um grupo que depende da presença dele para encontrar sentido de jogo não está pronto para nenhuma Copa. Um grupo que funciona sem ele — e que então o recebe como reforço, e não como muleta — tem outra consistência. Ancelotti sabe disso. A pergunta é se o Brasil de 2026 já aprendeu.

A arquibancada, que não lê escalação em planilha, vai sentir a ausência no calor da tarde de sábado. Vai procurar no campo o número dez, o drible que dobra o zagueiro, o detalhe que separa o talento do ordinário. Não vai encontrar. E então, como sempre faz, vai cobrar do que está — e torcer para que o que falta chegue a tempo de mudar alguma coisa.

Ancelotti espera Neymar na próxima semana. A Copa, enquanto isso, não espera ninguém.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Ancelotti espera contar com Neymar nos treinos na próxima semana

Fontes: Folha de S.Paulo · ge