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Ministério da Saúde recua em restrição a importações de medula óssea

Após anúncio de limitação por falta de orçamento, o Inca volta atrás e mantém acesso a transplantes internacionais para pacientes brasileiros.

Ministério da Saúde recua em restrição a importações de medula óssea
Banca de Jornal — Saúde & Bem-estar **Dek:** Após anúncio de limitação por falta de orçamento, o Inca volta atrás e mantém acesso a transplantes internacionais para pacientes brasileiros. ---

O Fato

O Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, anunciou na segunda-feira, 14 de abril, que reduziria o número de importações de medula óssea para o Brasil por restrições orçamentárias. Poucas horas depois, a instituição recuou publicamente da decisão, mantendo o acesso a transplantes internacionais para pacientes que não encontram doadores compatíveis no Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), coordenado pelo próprio Inca.

O anúncio inicial partiu da gestão do Inca diante de dificuldades financeiras que comprometem operações rotineiras. O Redome, responsável por manter o banco de dados de doadores e intermediar buscas internacionais, depende de financiamento federal para cobrir custos de importação, análise e processamento de medula estrangeira. Segundo dados da instituição, aproximadamente 30% dos transplantes realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) envolvem medula importada, quando nenhum doador compatível é localizado no registro nacional.

A reversão ocorreu após pressão de médicos, pacientes e organizações da sociedade civil ligadas ao transplante. Hematologistas de centros de referência consultados pela Folha apontaram que uma restrição efetiva condenaria pacientes sem alternativas compatíveis ao Brasil a morte ou progressão da doença. O Ministério da Saúde, por nota, confirmou que "a importação continua garantida nos casos onde há indicação clínica comprovada e impossibilidade de encontrar doador compatível no Redome". A instituição não detalhou como pretende contornar o problema orçamentário.

O episódio expõe fragilidade no financiamento de tecnologias críticas do SUS. O transplante de medula óssea trata leucemias, linfomas e anemia aplástica grave, doenças onde o procedimento é frequentemente a única opção curativa. O Brasil possui um dos maiores registros de doadores voluntários da América Latina, com cerca de 4,5 milhões de inscritos, mas a compatibilidade genética segue como gargalo: apenas 25% a 30% dos pacientes encontram doador compatível no banco nacional.

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A Análise de Dra. Camila Torres

Como médica que acompanha pacientes oncológicos há mais de 15 anos, não posso deixar de nomear o que aconteceu: foi um susto desnecessário que revelou como funcionamos à beira do colapso. A decisão inicial do Inca não era apenas um corte administrativo — era uma sentença de morte adiada para pessoas que dependem de medula importada.

O recuo é correto, mas insuficiente. Uma instituição de saúde pública não deveria anunciar e desanunciar a mesma restrição em poucas horas. Isso não é gestão; é improviso mascarado de flexibilidade. O que diz respeito aos pacientes é que continuamos sem resposta real: como o Ministério da Saúde vai garantir, de fato, que importações continuarão acontecendo quando o orçamento não comporta?

"Recuar de uma má decisão é louvável. Mas continuar sem resolver o problema que a gerou é negligência institucional."

A questão de fundo é estrutural. O SUS, que é um sistema extraordinário, não pode depender de crises orçamentárias cíclicas para definir quem vive e quem não vive. Transplante de medula óssea é procedimento de alta complexidade, exigente em custo e precisão. Não é serviço que comporta "melhorias" ou "eficiências" mágicas. Ou existe orçamento adequado, ou pacientes sofrem.

Além disso, o episódio também sinaliza um problema maior na comunicação pública sobre saúde. Quando instituições anunciam cortes sem diálogo prévio com profissionais da linha de frente, criam pânico justificado. Isso erosiona confiança no sistema e no gestor. No futuro, quando o Inca precisar fazer ajustes reais, ninguém acreditará.

O que precisa acontecer agora é transparência: que o Ministério detalhe o cronograma de importações previsto para 2026, quantos procedimentos serão possíveis e qual é o real limite orçamentário. Pacientes e médicos merecem planejamento, não surpresas.

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A próxima crise orçamentária chegará. A pergunta que fica é: o Inca saberá gerir sem improvisar?

Dra. Camila Torres — Saúde & Bem-estar. Banca de Jornal, Xaplin.