Algoritmo Quebrado no Metrô de Quem Não Tem App
O Fantasma da Tecnologia Que Excluiu Encontrei ontem um senhor de 67 anos sentado no chão da Estação Brás, em São Paulo, tentando entender por que o.
SURURU_
O Fantasma da Tecnologia Que Excluiu
Encontrei ontem um senhor de 67 anos sentado no chão da Estação Brás, em São Paulo, tentando entender por que o catraca eletrônica não o deixava passar. Ele tinha o cartão. O cartão tinha saldo. Mas a máquina — aquela caixa cinzenta de vidro temperado e desdém corporativo — tinha decidido unilateralmente que ele não existia.
"Meu filho liga no computador dele e consegue passar. Por que comigo não funciona?", perguntou para ninguém em particular, enquanto uma fila de 40 pessoas respirava no seu pescoço. Era 7h45 da manhã. O Brasil inteiro com pressa de não chegar a lugar nenhum.
A Matemática da Invisibilidade
A Companhia do Metropolitano de São Paulo fez um upgrade há três meses. Migrou tudo para um sistema "inteligente" — palavra que em português de corporação significa "caro, fechado e hostil com quem não tem acesso prévio". O app é grátis, claro. Mas você precisa de celular, precisa de cadastro, precisa de CPF registrado corretamente, precisa de uma conta bancária para fazer recarga automática, e — aqui está o pequeno detalhe que ninguém menciona nos comunicados — precisa de alguém que saiba usar.
O senhor da Brás não tem nenhuma dessas coisas. Tem o cartão físico que comprou há 15 anos. Tem a rotina de apertar o botão de recarga e pagar com dinheiro vivo. Mas algoritmo não é feito para gente assim. Algoritmo é feito para gente que existe no cloud e toma café expresso enquanto mexe em cinco abas do navegador.
"Modernizar" virou sinônimo de 'deixar para trás'. E ninguém avisa que está deixando ninguém para trás.
O Progresso Pegou Fogo no Caminho
Liguei para a central de atendimento. Toquei em 4 números, ouvi 8 mensagens diferentes, fui transferido para um robô que perguntou meu problema em voz artificial, entrei em fila de espera ouvindo um jingle que parecia ter sido composto por alguém em coma medicamente induzido. Quando uma pessoa atendeu — com sotaque de call center em city que eu apostaria estar em Manaus, mas provavelmente era um audio sintetizado mesmo — me disse que "o sistema trabalha com tecnologia de ponta e às vezes há incompatibilidades".
Incompatibilidade. Palavra bonita para dizer "você é obsoleto".
O senhor da Brás acabou pedindo para passar pela catraca de serviço. Um funcionário deixou. Nem olhou para ele. Somente pressionou um botão que abriu a engrenagem. Tratou-o como uma falha no código — algo que precisava de um comando administrativo para funcionar.
Quem Paga o Preço da Smartificação
Ninguém faz coletiva de imprensa para contar quantas pessoas ficaram do lado de fora do metrô porque o algoritmo acordou de mau humor. A prefeitura comemora redução de custos operacionais. A empresa que vendeu o sistema coloca na apresentação de resultados que "otimizou a experiência do usuário". E a gente segue acreditando que progresso é um vetor reto que aponta para cima.
Não é. Progresso é mais parecido com um helicóptero: gira em torno de si mesmo, faz muito barulho, voa para lugar nenhum, e deixa todo mundo tonto embaixo.
O metrô segue funcionando. O senhor de 67 anos segue pegando o metrô. Mas agora ele sabe que o Brasil decidiu deixá-lo ficar invisível para as máquinas. E máquinas, a gente aprendeu, são mais poderosas que gente.
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