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Quando o Brasil descobre que seus rios viraram startups

A morte lenta das águas que ninguém quer ver Fui até Minas Gerais na segunda quinzena de março para investigar um assunto que ninguém quer tocar sem.

Quando o Brasil descobre que seus rios viraram startups

SURURU_

A morte lenta das águas que ninguém quer ver

Fui até Minas Gerais na segunda quinzena de março para investigar um assunto que ninguém quer tocar sem luva: os nossos rios estão virando negócio. Literalmente. Empresas de tecnologia, fundos de investimento e até gestoras de criptomoedas estão comprando direitos de água como quem compra ações na bolsa. O Rio das Velhas, aquele que inspirou poesia, agora inspira planilhas Excel.

Sentei numa choperia em Belo Horizonte com um assessor jurídico de uma holding que não podia ser identificado — claro que não podia. "Água é o ouro do século 21", disse ele, com a segurança de quem aprendeu a frase num TED Talk. Paguei a cerveja dele e deixei ele falar. Essa é a técnica: deixar os imbecis se incriminarem sozinhos enquanto você bebe.

O que está acontecendo é constitucional. Tecnicamente. A água é dominial — pertence ao estado. Mas os "direitos de exploração" podem ser privatizados, alugados, vendidos, securitizados. É como vender o direito de respirar, mas apenas nos pulmões que você comprou. A pirueta jurídica funciona assim: você não compra o rio. Você compra o direito de tirar água dele por 30 anos. Depois vence. Mas até lá, o dinheiro já foi embora, o rio está mais magro, e seus filhos acham que água vem da torneira mesmo.

Conversei com um hidrólogo — esse cara realmente existia, tinha nome, formação, consciência — que me mostrou documentos que fariam qualquer ambientalista chorar cerveja. Desde 2019, o volume de concessões de água para fins industriais cresceu 340% no estado. Trezentos e quarenta por cento. Enquanto isso, duas cidades inteiras racionam água. A ironia é tão grossa que nem precisa de tempero.

O executivo que não dorme porque sabe que vai morrer de sede

Encontrei um sujeito — CEO de uma empresa de "gestão hídrica" — que passou a noite toda me contando, mais bêbado que eu (coisa rara), sobre seus conflitos existenciais. "Como assim você investe em escassez de água para ganhar dinheiro com escassez de água?", perguntei, sem filtro. Ele encarou meu copo de uísque como quem encararia o próprio espelho. "Jumerli", disse, "o Brasil escolheu. A gente só está monetizando a escolha."

Ele estava certo. E era irritante demais estar certo. Porque a verdade brava é que ninguém — não a Aneel, não o Ministério da Integração, não o Palácio do Planalto — consegue impedir que a água se torne commodity quando a estrutura legal permite. É como proibir capitalismo com as mesmas ferramentas do capitalismo. Não funciona.

De volta para casa, sem respostas, com muita sede

Voltei para o Rio transtornado. A minha torneira funciona. Tomei banho quente. Bebi água gelada. E pensei em como a gente consegue viver numa ilusão tão confortável enquanto o próprio futuro está sendo repassado para fundos de investimento em Xangai.

Não tenho solução. Hunter Thompson também não tinha. Mas ele sabia que o primeiro passo é enxergar o problema sem piscar. E aqui está: seus rios viraram startups. A notícia é essa.

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