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Luciano Figueiredo celebra 60 anos de carreira com retrospectiva

Retrospectiva 'Por Toda Parte Escreverei o Seu Nome' celebra seis décadas de obra do artista no Rio de Janeiro.

Luciano Figueiredo celebra 60 anos de carreira com retrospectiva
Bica. — Cultura & Arte

O Fato

A Folha noticiou, em data recente, a abertura da exposição "Por Toda Parte Escreverei o Seu Nome" no Rio de Janeiro, retrospectiva que celebra os 60 anos de carreira artística de Luciano Figueiredo. A mostra reúne 30 trabalhos que representam décadas de pesquisa do artista sobre a escala cromática, todos originados de um episódio casual: a descoberta de um jornal francês cujo pé de página tornou-se ponto de partida para uma investigação estética que se estenderia por toda uma trajetória.

O acervo exposto é composto majoritariamente por relevos de cores, série pela qual Figueiredo tornou-se referência no cenário das artes plásticas brasileiras. A exposição não é simplesmente um amontoado de obras; é um percurso que documenta a evolução de um artista que atravessou décadas determinante na história cultural do Brasil. Estamos falando de um criador que presenciou e dialogou com o cinema experimental francês de Godard, absorveu as influências da poesia concreta brasileira e conviveu com o movimento tropicalista — três forças que redefiniram a compreensão do que é possível fazer em arte no Brasil do século XX.

A data desta exposição coincide com um momento de revisão histórica importante. Figueiredo completa seis décadas de dedicação ininterrupta à linguagem cromática, período em que produziu uma obra vastíssima e coerente. Seus relevos não são meros objetos decorativos; trata-se de investigações formais sobre como a cor funciona quando liberada de sua função narrativa ou ilustrativa tradicional. A escolha do título — "Por Toda Parte Escreverei o Seu Nome" — sugere uma relação poética com a materialidade da cor, como se cada tonalidade fosse uma letra em um alfabeto visual.

No contexto brasileiro atual, essa retrospectiva chega em momento em que o mercado de artes plásticas continua fragmentado entre tendências comerciais e experimentalismo. A presença de Figueiredo no Rio reafirma a importância de artistas que mantiveram suas investigações formais sem concessões ao gosto imediato, criando um corpo de trabalho que resiste às modas e dialoga com questões atemporais sobre percepção e significação visual.

A Análise de André Cavalcanti

Há algo de profundamente libertador em uma carreira como a de Luciano Figueiredo. Em seis décadas dedicadas exclusivamente à exploração da cor — sua materialidade, sua vibração, sua capacidade de comunicação silenciosa — ele construiu um caminho que desafia a lógica contemporânea da arte como produto ou mensagem política imediata. Isso não significa que sua obra seja apolítica; significa, antes, que ele acreditou que a política real da arte está na resistência à simplificação, na recusa de reduzir a experiência visual a um conteúdo facilmente digerível.

O artista comentou publicamente seu descontentamento com uma cena artística em que prevalecem preocupações políticas acima de qualquer investigação formal. Essa crítica é delicada, porque não se trata de negação da responsabilidade social da arte, mas de uma denúncia contra a colonização total do espaço artístico por demandas externas. Quando a arte torna-se apenas ferramenta de mensagem política, ela corre o risco de perder aquilo que a torna arte: a capacidade de gerar experiência sensória irredutível a paráfrase verbal.

A cor é uma linguagem que não precisa de tradução. Figueiredo compreendeu isso enquanto gerações inteiras de artistas corriam atrás de certificados políticos e aprovação de públicos já formados.

Sua formação em contato com Godard, a poesia concreta e o tropicalismo é crucial para entender sua posição. Esses movimentos, cada um a seu modo, buscavam expandir os limites do que era considerado arte — seja através da fragmentação fílmica, da desconstrução tipográfica ou da saturação sensória. Figueiredo absorveu essa energia libertária, mas a canalizou de forma particular: não em dirção ao caos ou à destruição, mas para uma construção cada vez mais rigorosa e essencial. Seus relevos cromáticos são o oposto do acidental; são precisão elevada ao nível da poesia.

O fato de que uma cor encontrada acidentalmente em um jornal francês o tenha ocupado por seis décadas diz tudo sobre a profundidade genuína. Isso não é obsessão neurótica; é dedicação amorosa. É a escolha de aprofundar-se em um problema até suas últimas consequências, recusando as desvios que tantos artistas tomam em nome da visibilidade ou aceitação social. Aos 60 anos de carreira, Figueiredo oferece uma lição de integridade que nossa época precisa desesperadamente recuperar.

Que esta exposição no Rio de Janeiro seja lida como que é: não apenas celebração de um artista, mas demonstração viva de que é possível manter a coerência formal e a liberdade criativa em um contexto que constantemente as ameaça.

A experiência visual que Figueiredo propõe nos confronta com uma pergunta incômoda: o que restaria da arte se removêssemos toda a bagagem de significação política e contexto social — e, ainda assim, restaria algo capaz de nos transformar?

André Cavalcanti — Cultura & Arte. Bica..