Capital do Samba
Bica. — Opinião Sempre que a cultura ganha espaço factual, a gente deveria prestar mais atenção do que presta. Contexto Alcione, Jorge Aragão e Zeca…
Sempre que a cultura ganha espaço factual, a gente deveria prestar mais atenção do que presta.
Contexto
Alcione, Jorge Aragão e Zeca Pagodinho: juntos no palco do Fantástico A programação cultural do Rio tem entre seus destaques nos próximos dias um festival com grandes nomes do samba - entre eles Péricles, Ferrugem, Alcione e Alexandre Pires, na Marina da Glória. Outros destaques são o Festival Paredão Ocupa o Museu, que volta ao CCBB no sábado (16) e a Feira Literária de Santa Teresa também no sábado (16), além da exposição com obras de Waltercio Caldas na Casa Roberto Marinho, que estreia na qu
Numa sociedade que mede tudo em métricas de engajamento, a cultura é a última resistência do que é lento, complexo e não-monetizável. E por isso mesmo é a primeira a ser cortada quando o orçamento aperta. O Brasil gasta mais em publicidade institucional em um mês do que investe em fomento cultural em um ano. Isso não é acidente. É declaração de prioridades.
A história que a manchete não conta
Toda manifestação cultural existe dentro de um ecossistema. O artista não cria no vácuo — cria dentro de condições materiais, políticas e sociais que determinam o que é possível. Quando um filme brasileiro é indicado ao Oscar, celebramos o gênio individual. Mas esquecemos de perguntar: quantos filmes não foram feitos porque o financiamento secou? Quantas histórias não foram contadas porque o artista precisou escolher entre criar e sobreviver?
A cultura que chega ao público é a ponta visível de um iceberg. Debaixo da superfície há uma estrutura de incentivo, formação, distribuição e preservação que no Brasil é cronicamente subfinanciada. Produzimos cultura de classe mundial com orçamento de bazar de escola.
A cultura não serve para nada — e é exatamente por isso que ela é indispensável. O que não serve para nada é o que nos faz humanos.
Arte e política: a falsa neutralidade
Toda arte é política — mesmo a que finge não ser. A escolha de não abordar política é, em si, uma posição política: a posição de quem pode se dar ao luxo de ignorar. Quando dizemos que arte não deve ser política, o que estamos realmente dizendo é que ela não deve incomodar quem está confortável.
A melhor arte brasileira sempre incomodou. Glauber incomodou. Gil incomodou. Clarice incomodou. Não porque queriam — porque a realidade brasileira, quando olhada de frente, é incômoda. O artista que não incomoda está decorando, não criando.
O que essa notícia revela
Que a cultura brasileira continua viva, pulsante, criativa e teimosa. Apesar dos cortes, dos algoritmos, da pressa. Continua existindo porque existe gente que acredita que fazer arte não é profissão — é destino. E porque o Brasil, com todos os seus defeitos, é um dos poucos países do mundo onde a criatividade popular é inesgotável.
Do funk ao frevo, do cordel ao cinema, da grafite ao design — a produção cultural brasileira é uma das mais ricas e diversas do planeta. Não porque temos condições ideais, mas porque temos talento em excesso e teimosia em quantidade industrial.
E isso, sim, merece uma manchete. Merece mais do que uma manchete — merece política pública, investimento e respeito.
André Cavalcanti — Cultura & Arte. Bica..