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As mãos para o alto

Crônica · Heitor Graça O advogado tirou os óculos. De armação grossa, escura, deixaram na pele uma marca funda, duas covas brancas de cansaço…

As mãos para o alto
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

O advogado tirou os óculos. De armação grossa, escura, deixaram na pele uma marca funda, duas covas brancas de cansaço na altura do nariz. Ele os limpou na ponta da gravata, um gesto automático, de quem já não sabe o que fazer com as mãos. Dentro do Fórum da Barra Funda, cinco homens e duas mulheres decidiram que a vida podia seguir seu curso normal para dois policiais militares, que um rapaz de vinte e quatro anos encurralado atrás de uma cama era, talvez, um erro de perspectiva.

Lá fora, a vida de fato seguia. Ônibus expelindo fumaça, o som de uma freada brusca, gente falando ao celular sobre contas a pagar. Ninguém ali sabia dos nomes — nem o de Igor, nem os de Renato ou Robson —, nem que por um ano eles estiveram guardados num presídio militar na zona norte. A notícia seria apenas uma nota breve no jornal da noite, espremida entre a cotação do dólar e a previsão do tempo para o feriado.

Mas para o advogado com os óculos na mão, e para a família que ele representa, o tempo parou de correr em linha reta. Voltou para uma viela sem nome em Paraisópolis, para um vídeo granulado rodando em looping. Um vídeo que mostra mãos na cabeça, a rendição explícita, a obediência que precede o fim. A defesa da família confia, diz a nota oficial, que o Tribunal restabelecerá a justiça.

Confiar. É um verbo que exige algum futuro. Para quem ficou, o futuro é um recurso no tribunal e a memória de um corpo que já não ocupa espaço. Para os réus, agora absolvidos, é o alvará de soltura, o portão do presídio se abrindo. Para o resto de nós, é a estranha sensação de que há imagens que, mesmo vistas por todos, permanecem secretas, compreendidas apenas por quem estava lá. Ou por quem, no fim, tem o poder de decidir o que realmente aconteceu quando um rapaz levantou as mãos.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Júri absolve PMs por morte de jovem rendido em Paraisópolis

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo