Artesão sergipano leva autenticidade do cangaço para telas da Globo
O artesão sergipano Tássio Sereno conquistou seu espaço na produção de uma das maiores novelas da Rede Globo.
O Fato
O artesão sergipano Tássio Sereno conquistou seu espaço na produção de uma das maiores novelas da Rede Globo. De acordo com reportagem divulgada pela G1 em maio de 2026, Tássio foi responsável pela confecção de peças autênticas do figurino para "Guerreiros do Sol", novela que resgata as histórias dos cangaceiros Lampião e Maria Bonita, ícones da resistência nordestina.
Em entrevista à TV Sergipe, o artesão revelou os detalhes de um processo meticuloso de pesquisa e produção. Tássio trabalha com réplicas rigorosamente autênticas da indumentária do cangaço, baseando-se em estudos aprofundados de livros históricos, fotografias de época e documentos videográficos que retratam a vida do bando de Lampião no sertão brasileiro. O trabalho vai muito além da simples confecção: cada peça carrega precisão histórica e respeito ao patrimônio cultural nordestino.
A novela "Guerreiros do Sol" marca um momento importante na televisão brasileira, trazendo para o horário nobre um relato dramatizado sobre um dos períodos mais complexos e fascinantes da história do sertão. As peças de Tássio não são meros adereços cenográficos—são documentos vivos que conectam o telespectador ao passado, garantindo que a representação visual seja fiel à realidade histórica. O trabalho do artesão sergipano representa também o reconhecimento de talentos regionais pela indústria cultural brasileira, demonstrando que a excelência artesanal nordestina transcende as fronteiras do comércio local e ganha relevância nacional.
A participação de Tássio no projeto da Globo evidencia como a preservação e reinterpretação do patrimônio cultural podem ser viáveis economicamente e culturalmente significativas. Não se trata apenas de fazer roupas para televisão—trata-se de manter viva uma memória, de garantir que futuras gerações vejam o sertão não através de estereótipos, mas através de peças que contam histórias reais de resistência, identidade e pertencimento.
A Análise de André Cavalcanti
Há algo profundamente tocante na história de Tássio Sereno que vai muito além de um simples "artesão que trabalha para a TV". Estamos falando de um homem que transformou conhecimento histórico em arte, que recusou a frivolidade de um figurino qualquer e insistiu—ou foi capaz de convencer os produtores—na autenticidade como princípio não-negociável. Isso é raro. Muito raro.
O Brasil que nos interessa, aquele que realmente move a criatividade e a inovação, não surge dos grandes centros de tecnologia ou dos escritórios de vidro em São Paulo e Rio. Surge de lugares como Sergipe, das mãos de pessoas como Tássio, que carregam em seus gestos e em seus conhecimentos séculos de tradição cultural. Quando uma novela como "Guerreiros do Sol" escolhe trabalhar com esse tipo de profissional, escolhe também trabalhar com a verdade. E a verdade, independentemente do que a indústria do entretenimento nos faça crer, ainda importa.
"O sertão não é cenário de fundo—o sertão é personagem. E personagem merece dignidade histórica, não caricatura televisiva."
O que me preocupa—e me motiva a escrever—é que essas histórias ainda surpreendem. Não deveria surpreender que um profissional nordestino de excelência reconhecida trabalhe em uma produção de ponta. Deveria ser a norma. Mas vivemos em um país onde a lógica ainda centraliza oportunidades, prestígio e recursos nas mesmas geografias, nas mesmas redes de poder. Tássio conseguiu furar esse bloqueio. Sua trajetória é um ato de resistência cultural tão legítimo quanto o dos cangaceiros que ele retrata em suas peças.
A novela "Guerreiros do Sol" ganha em credibilidade, em profundidade visual, em respeito ao material histórico. O público ganha ao ver representado não o sertão fantasiado, mas o sertão real—áspero, belo, complexo. E a cultura brasileira ganha quando reconhece seus verdadeiros guardiões: não os que falam sobre tradição de longe, mas os que a vivem, a estudam e a recriam com as mãos.
Que Tássio Sereno seja o primeiro de muitos artesãos, historiadores, criadores nordestinos a ocuparem espaços que historicamente lhes foram negados. Que "Guerreiros do Sol" abra portas, e que outras produções ousem fazer o mesmo: trabalhar com profundidade, autenticidade e respeito aos saberes regionais.
Quando a televisão decide honrar a história em vez de apenas vendê-la, e quando profissionais como Tássio são valorizados por isso, toda a cadeia cultural brasileira ascende.André Cavalcanti — Cultura & Arte. Bica..