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Abate de porcos no Santos Dumont

Crônica · Heitor Graça Lembro de uma vizinha, Dona Elvira do oitavo andar, que me parava no elevador para mostrar fotos dos netos.

Abate de porcos no Santos Dumont
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Lembro de uma vizinha, Dona Elvira do oitavo andar, que me parava no elevador para mostrar fotos dos netos. Mostrava com um orgulho que só as avós possuem, a tela do telefone tremendo um pouco na mão. "Esse aqui vai ser médico", dizia, "e essa aqui, veja só, parece uma artista de cinema". Ela confiava no que via, no que sentia. Confiava no rosto de uma criança de sete anos como quem confia numa promessa de sol para o domingo.

Hoje li sobre a senhora de 70 anos que perdeu o dinheiro de uma vida. Não o dinheiro do pão, mas o da herança, dos investimentos, aquele que talvez garantisse os estudos dos netos. Foi em Gravataí, longe daqui, mas a ponta do fio veio dar no nosso aeroporto. No Santos Dumont, um homem foi preso ao tentar embarcar para Santa Catarina.

O golpe tem um nome feio, traduzido de outra língua: "abate de porcos". A expressão é de uma brutalidade que dispensa explicações. Os criminosos não chegam de arma na mão. Chegam com a voz mansa, com planilhas coloridas e a promessa de multiplicar o pão e o peixe, digo, os reais. Criam uma comunidade, um calor de pertencimento em grupos de mensagens, mostram lucros que nunca existiram. Vão engordando a confiança da vítima, dia após dia, até a hora do abate.

A senhora gaúcha, como a minha antiga vizinha, deve ter olhado para uma tela de telefone e acreditado numa promessa. Talvez tenha pensado nos seus, num futuro mais tranquilo. Perdeu trinta e sete milhões de reais. O homem preso no Rio, apontado como dono de uma das empresas do esquema, teria recebido setenta e sete milhões numa conta pessoal.

Do meu apartamento em Copacabana, fico pensando na distância entre a mentoria fraudulenta oferecida por um aplicativo e a prisão fria num aeroporto. Entre a confiança de uma senhora diante de uma tela e o som metálico das algemas. Entre a promessa de um futuro de artista de cinema e o abate.

Quantos rostos sorridentes, nos retratos de família, são guardados com o dinheiro que se imaginava seguro?

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: PF prende suspeito de golpe de R$ 37 milhões contra idosa no Rio

Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo