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A voz que espera na Penha

Crônica · Heitor Graça A janela do meu apartamento em Copacabana, esta que agora me mostra um céu cinzento prometendo chuva, não alcança a Avenida…

A voz que espera na Penha
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

A janela do meu apartamento em Copacabana, esta que agora me mostra um céu cinzento prometendo chuva, não alcança a Avenida Meriti. De onde estou, não se ouve o barulho de um 629, a freada brusca, o pânico dos passageiros descendo às pressas para se abrigar num colégio. A vida aqui segue com o chiado manso dos pneus no asfalto molhado e a conversa de um vizinho no telefone.

Mas sei que a cidade é uma só, e a notícia me chega como um eco torto, trazendo o sol áspero de Vicente de Carvalho para a minha sala. Imagino a cena, não a do confronto, que essa já conhecemos de cor e com tédio. Imagino o momento anterior. A fonoaudióloga Aline, 53 anos, a caminho do trabalho. Talvez ajeitasse a bolsa no colo, talvez olhasse a paisagem suburbana passar com a familiaridade de quem faz aquele trajeto todos os dias. Talvez pensasse nos pacientes que a esperavam, nas vozes que ajudaria a consertar, nos sons que ensinaria a pronunciar.

Uma mulher que trabalha com a delicadeza da fala, com o sopro que vira palavra, tem seu destino interrompido por um projétil na coluna cervical. O instrumento de seu ofício, a garganta, o pescoço, violado da forma mais bruta. Há uma ironia aí que não tem graça nenhuma.

Depois, o caos que é quase método. O motorista em choque, incapaz de seguir. O policial que assume o volante. O ônibus, cenário de uma tragédia anônima, vira uma ambulância improvisada. E ainda bate numa ambulância de verdade ao chegar ao hospital. Se alguém escrevesse isso num roteiro, diriam que é inverossímil, que a realidade não acumula tantos absurdos num único ato.

Aline está em estado grave no CTI do Getúlio Vargas. O resto é nota oficial, perícia, policiamento reforçado. Palavras que tentam ordenar o que se quebrou. Lá fora, a chuva fina começa a cair em Copacabana. Fico pensando em quantas vozes, neste exato momento, se calam para que a dela possa voltar.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Fonoaudióloga baleada na zona norte do Rio está em estado grave

Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.