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A vidraça do quarto de Marta

Crônica · Heitor Graça Houve uma noite em que a professora Marta pediu ao marido para trocarem de lado na cama.

A vidraça do quarto de Marta
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Houve uma noite em que a professora Marta pediu ao marido para trocarem de lado na cama. Não era capricho de quem busca o lado mais fresco do lençol ou foge de um filete de luz teimoso da rua. Era medo. O quarto deles tinha uma vidraça grande, e Marta, que por vinte e seis anos ensinou crianças a juntar as primeiras letras, agora temia que uma pedra ou coisa pior atravessasse o vidro no meio da noite.

O medo tinha nome, mas não rosto. Tinha a voz de um pai, amplificada pelo telefone da escola, prometendo matá-la. A razão era o filho de seis anos, que não se adaptava bem à transição do ensino infantil, que tinha dificuldade com a lição de casa. E a culpa, decidiram, era de Marta. Aquela “vagabunda”, como disse a voz.

Imagino a cena. Marta, cinquenta anos de vida, sentada numa delegacia, ao lado do marido. A solidão de uma sala de ocorrências de madrugada, sem ninguém da gestão da escola, sem o amparo que deveria vir junto com o giz e a lousa. O boletim foi feito, o protocolo foi seguido, mas o medo não se registra em papel timbrado. Ele se instala no corpo, muda os móveis de lugar, troca o lado da cama. Ele faz uma professora, acostumada a decifrar o mundo para os pequenos, desconfiar da própria janela.

Ela foi afastada daquela escola. Terminou o ano letivo em outra unidade, com outras crianças, outras janelas. Mas a vidraça do seu quarto continuou sendo a mesma. A gente não sabe se ela e o marido chegaram a trocar de lado, ou se apenas reforçaram as cortinas. O que se sabe é que o abalo psicológico foi, como ela mesma diz, horroroso. Uma coisa é ensinar o “b” com “a” que faz “ba”. Outra, bem diferente, é ter que aprender a dormir de novo no seu próprio quarto.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Mais de 65% dos professores brasileiros sofreram agressão escolar

Fontes: g1 · BBC News Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.