O PCC e seu extrato bancário
Análise · Luciano Aragão Dezenove viaturas e 57 policiais militares para executar 18 mandados.
Análise · Luciano Aragão
Dezenove viaturas e 57 policiais militares para executar 18 mandados. O braço armado do Estado moveu-se na manhã desta terça-feira em São Paulo. O alvo, contudo, não eram fuzis ou depósitos de entorpecentes, mas o que os investigadores chamam de “operadores financeiros”. Na guerra contra o Primeiro Comando da Capital, o dinheiro deixou de ser um detalhe da logística para se tornar o próprio campo de batalha.
A operação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), unidade do Ministério Público de São Paulo, é um retrato de como a repressão ao crime organizado evoluiu. A tática de sufocar o fluxo de caixa, consagrada em outras latitudes, ganha tração por aqui. Menos pelo espetáculo das prisões, mais pela asfixia lenta e burocrática das finanças. Os R$ 10 milhões bloqueados são apenas o começo da trilha.
A estrutura por trás da violência
O PCC há muito deixou de ser uma rebelião carcerária para se tornar uma corporação com contabilidade paralela. As investigações revelaram o método: transferências fracionadas, uso de contas de terceiros e a fachada de empresas para lavar os recursos que alimentam a facção. É um sistema que mimetiza práticas empresariais, adaptadas ao submundo. A complexidade dessa engenharia financeira demonstra que o poder da organização não reside apenas em sua capacidade de violência, mas na sua habilidade de se infiltrar na economia formal.
A menção aos “tribunais do crime” no mesmo inquérito que apura a lavagem de dinheiro é a peça que conecta as duas pontas do negócio. Os mesmos indivíduos que garantem a liquidez da organização são suspeitos de participar das instâncias que julgam e executam sentenças à margem da lei. O dinheiro financia o poder; o poder, exercido com brutalidade, protege o dinheiro. É um ciclo fechado, que a operação do GAECO tenta romper pelo elo financeiro.
Enquanto a Justiça paulista determina o sequestro de bens, imóveis e veículos, fica claro que cada real bloqueado causa mais dano à estrutura do que uma dezena de prisões em escalões inferiores. O Estado entendeu que para desmantelar o comando é preciso, antes, cortar seu suprimento.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Ministério Público de SP atua contra PCC em operação
Fonte: Agência Brasil