A terra não avisa
Análise · Clara Verdi Às cinco da manhã na Ilha de Flores, a terra não se importa com quem dorme.
Análise · Clara Verdi
Às cinco da manhã na Ilha de Flores, a terra não se importa com quem dorme. Ela se move como sempre fez, ao longo de uma falha geológica que os homens batizaram de Círculo de Fogo, um nome que soa a mito para uma realidade de placas tectônicas. Para os 47 que não acordaram, esmagados pelos escombros de suas próprias casas, o nome não importa. A escala de magnitude, 7,7, é apenas a medida de uma violência que não se pode medir em experiência humana. Apenas em ausência.
O que se seguiu foi o roteiro clássico do desastre televisionado. O alerta de tsunami. O mar que recua, como um animal que toma fôlego antes de morder, e o pânico dos que conhecem esse sinal. Pacientes arrastados para a rua, fora das clínicas que deveriam ser refúgio. A imagem do porto de Maumere, onde o concreto se desfaz como gesso e homens são lançados à água, é a síntese: a infraestrutura moderna, essa fina camada de ordem que erguemos sobre o caos, não resiste a um soluço do planeta.
Longe dali, em Bruxelas, a União Europeia oferece o envio de satélites para ajudar no resgate. É uma oferta de tecnologia, de olhos que veem de cima, um gesto de poder organizado diante de uma força desorganizada. É a resposta do século XXI a um pavor antigo. Mas os satélites não desobstruem as estradas de Nagekeo, não encontram tendas para a família de Maria e seus dois bebês, não devolvem o corpo do jovem encontrado pelos socorristas. Ajudam, talvez, a mapear a ruína.
Duas centenas de abalos secundários depois, a terra continua a lembrar quem manda. Para os geólogos, são réplicas esperadas. Para quem está no chão, com a casa em pedaços e o futuro incerto, é a tortura da instabilidade permanente. A promessa de que o chão sob os pés não é mais uma certeza. É apenas um intervalo.
Quando a ajuda chegar e as câmeras partirem, o que resta para quem sobreviveu em Flores? Apenas a memória de um amanhecer e o conhecimento de que se vive, sempre, na periferia da própria terra.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Terremoto de 7,7 atinge Indonésia, mata 47 e destrói Ilha de Flores
Fontes: g1 · BBC News Brasil