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Terremoto atinge Venezuela enquanto país ainda contabiliza mortos

Um terremoto agravou a crise humanitária na Venezuela, que ainda contabilizava vítimas de desastres anteriores quando foi atingida pelo novo tremor de terra.

Terremoto atinge Venezuela enquanto país ainda contabiliza mortos

Análise · Clara Verdi

Há uma crueldade específica no terremoto que atinge um país antes mesmo que ele tenha terminado de contabilizar seus mortos anteriores — não os sísmicos, mas os políticos, os econômicos, os da fome e do exílio. A Venezuela que tremeu nesta quarta-feira já vivia, há anos, uma espécie de colapso em câmera lenta. O que a magnitude 7,5 — ou 7,1, conforme a fonte — fez foi tornar esse colapso de repente vertical, literal, visível em concreto e poeira sobre Caracas.

Os números divergem entre o serviço sismológico americano, o USGS, que registrou 7,1, e outras medições que chegaram a 7,5. A diferença técnica é relevante — entre uma e outra escala de Richter há uma diferença enorme de energia liberada —, mas o que os relatos convergem em dizer é que prédios desabaram na capital. Isso, por si só, é uma sentença sobre décadas de infraestrutura negligenciada, sobre um Estado que há muito deixou de funcionar como garantia de vida para seus cidadãos.

Caracas não é uma cidade construída para resistir ao que seu próprio solo frequentemente anuncia. A Venezuela está assentada sobre uma das zonas de maior atividade sísmica da América do Sul, onde a placa caribenha encontra a sul-americana em atrito permanente. Esse dado geológico convive, desde sempre, com um dado político igualmente estrutural: a construção civil venezuelana das últimas décadas foi marcada pela corrupção, pelo improviso e, mais recentemente, pelo abandono puro e simples de qualquer política habitacional digna desse nome. Quando um prédio cai num terremoto, a pergunta técnica é sobre a magnitude do tremor. A pergunta política é sobre quem permitiu que aquele prédio existisse daquele jeito.

O terremoto não escolhe o momento. Mas encontra sempre o que já estava prestes a cair.

Observar isso da Europa tem uma dimensão particular. Aqui, nos últimos anos, a crise venezuelana foi narrada sobretudo como fluxo migratório — os rostos nos campos de Cúcuta, as filas em Bogotá, os números da diáspora que chegou também à Espanha e a Portugal. O país-em-si, o país como território físico e como sociedade que ainda respira dentro dele, aparece cada vez menos. Um terremoto pode, perversamente, devolver esse território ao mapa da atenção internacional — mas por quanto tempo, e com que enquadramento?

Há também a questão do Estado como primeiro respondente. Em qualquer desastre natural, a capacidade de resposta imediata — resgate, assistência médica, abrigo provisório — depende diretamente da estrutura institucional preexistente. O que se sabe sobre a Venezuela de hoje é que essa estrutura foi corroída de maneira sistemática. Hospitais sem insumos, bombeiros sem equipamento, comunicações instáveis. O terremoto não criou esse vácuo. Apenas jogou pessoas dentro dele.

Ainda não há, no material disponível até agora, número de mortos nem balanço de feridos. Essa ausência de dados, neste momento, não é apenas lacuna jornalística — é também um retrato do país. Contar os mortos exige um Estado que conte. A Venezuela, neste momento, tem outros problemas com a aritmética do real.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto de magnitude 7,5 atinge Venezuela e derruba prédios

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo