O Brasil que não precisa de milagre para vencer
Análise · Marcos Tibúrcio Há seleções que vencem por inspiração. Há as que vencem por sistema.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há seleções que vencem por inspiração. Há as que vencem por sistema. O Brasil que bateu a Escócia por 3 a 0 na terceira rodada da Copa do Mundo de 2026 não é nem uma coisa nem outra — ou é as duas ao mesmo tempo, o que talvez seja a definição mais honesta de uma equipe que amadureceu sem perder o brilho.
A Escócia não veio aqui para vencer. Veio para não tomar gol, que é uma ambição diferente e, no futebol, igualmente legítima. O problema é que resistir ao Brasil deste torneio exige uma organização que a Escócia demonstrou ter só nos primeiros minutos. Depois, o meio-campo começou a ceder. E quando o meio-campo cede diante de Bruno Guimarães, o preço costuma ser alto.
Bruno Guimarães foi o arquiteto invisível da tarde. Garçom, como se diz — mas garçom no sentido nobre da palavra, aquele que sabe o que a mesa quer antes que ela peça. Cada passe dele carregava uma intenção que ia além do óbvio. Não é fácil jogar assim em Copa do Mundo, onde o espaço é menor, o erro é amplificado e o adversário tem o tempo de jogo para estudar seus hábitos. Bruno ignorou essa pressão com a desenvoltura de quem está jogando na vizinhança.
Vinicius Júnior brilhou de novo. A expressão seria clichê se o fenômeno não fosse tão consistente. Há jogadores que brilham quando o jogo permite. Vini brilha quando o jogo não quer. Contra a Escócia, não era um duelo de alto nível técnico — era um teste de paciência, de saber esperar a linha defensiva abrir um fresta. Ele esperou. E quando a fresta apareceu, não hesitou.
Rayan entrou e não se comportou como reserva. Comportou-se como jogador — que é uma distinção importante e que muita gente no banco de Copa do Mundo nunca aprende a fazer.
A entrada de Rayan diz algo sobre este grupo que vai além do placar. Seleções que dependem de onze titulares imutáveis sobrevivem até a segunda derrota. Seleções que têm jogadores capazes de entrar e não quebrar o ritmo chegam mais longe. Rayan entrou bem. Não foi decisivo da maneira mais óbvia, mas contribuiu sem atrapalhar — e em Copa do Mundo, isso tem um valor que o placar não registra.
O 3 a 0 é um resultado que soa maior do que o jogo talvez mereça como espetáculo. A Escócia não foi um adversário que testou os limites do Brasil. Mas testar limites não é o único critério. Há uma utilidade pedagógica em vencer sem sofrimento — a seleção aprende a controlar, aprende a administrar, aprende que nem todo jogo exige heroísmo.
Este Brasil chega à fase seguinte do torneio com algo que não se constrói em semanas de treino: a sensação de que sabe o que está fazendo. É cedo para afirmações maiores. A Copa tem fôlego para surpreender, para destruir certezas, para produzir os dramas que nenhuma planilha previu. Mas por ora, a seleção não parece estar aqui de passagem.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil vence Escócia por 3 a 0 na Copa do Mundo 2026
Fonte: ge