A sorte do porteiro do turno da noite
Crônica · Heitor Graça O porteiro do turno da noite, um rapaz magro que veio da Bahia e cujo nome eu sempre esqueço, tem um ritual.
Crônica · Heitor Graça
O porteiro do turno da noite, um rapaz magro que veio da Bahia e cujo nome eu sempre esqueço, tem um ritual. Lá pelas duas da manhã, quando Copacabana finalmente ensaia algum silêncio, ele encosta a cadeira de plástico na grade e saca o celular. A luz do aparelho ilumina um rosto tenso, que morde o lábio enquanto o dedo desliza rápido pela tela. Ele não está vendo fotos de família nem mensagens de amor. Ele está apostando.
A primeira vez que o vi, achei que estivesse jogando paciência. Mas a contração dos músculos do maxilar não era de quem espera um ás de copas. Era a contração de quem espera mudar de vida entre um gol do campeonato turco e o próximo escanteio na segunda divisão da Coreia. Ele me confessou, numa madrugada de insônia minha, que já tinha ganhado seiscentos reais. Depois, oitocentos. O problema, ele disse com um meio sorriso, era conseguir tirar o dinheiro de lá. O aplicativo sempre dava um erro na hora do saque. Mas ele tinha fé.
Hoje, enquanto eu descia para buscar um jornal, a TV da portaria noticiava uma operação. Falava de carros de luxo apreendidos em São Paulo e na Bahia, de relógios, de dinheiro em espécie. Falava de um número com muitos zeros, um bilhão e quatrocentos milhões de reais que saíram de bolsos pequenos para contas de empresas de fachada. O dinheiro, dizia o repórter, virava criptoativo, viajava para o exterior, sumia.
Pensei no rapaz da madrugada. Nos seus oitocentos reais presos num labirinto digital. Para os donos dos sites, era só poeira, um erro de arredondamento. Para o rapaz, era quase um mês de aluguel no quartinho onde mora, nos fundos de uma galeria por aqui. A fé que ele depositava no aplicativo não era fé no time turco; era fé no saque.
Subi com o jornal debaixo do braço, pensando que a maior aposta não é a que se faz no resultado de um jogo. É a que se faz na honestidade do dono da banca.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil