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A sobretaxa americana e a percepção do eleitor

Análise · Beatriz Fonseca Uma pesquisa do instituto Datafolha, divulgada na segunda-feira, 27 de julho, aponta que 52% dos eleitores brasileiros veem…

A sobretaxa americana e a percepção do eleitor
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Análise · Beatriz Fonseca

Uma pesquisa do instituto Datafolha, divulgada na segunda-feira, 27 de julho, aponta que 52% dos eleitores brasileiros veem uma intenção eleitoral nas sobretaxas impostas ao Brasil pelo governo de Donald Trump. Para essa maioria, as medidas comerciais visam auxiliar a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. O dado, por si só, revela como a opinião pública nacional processa a relação entre a política externa e as disputas domésticas, vinculando as ações de uma potência estrangeira aos movimentos de seus próprios candidatos.

O levantamento, realizado nos dias 22 e 23 de julho, ocorre em um contexto específico. Em julho, os Estados Unidos anunciaram uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e, dias depois, uma sobretaxa de 12,5%, esta última relacionada a alegações sobre condições de trabalho no país. A crise comercial se desenrola enquanto a pré-campanha presidencial avança, e a proximidade histórica entre a família Bolsonaro e o ex-presidente republicano é um elemento conhecido pelo eleitorado.

A percepção, como é usual em questões politizadas, não é homogênea. Entre os eleitores que declaram voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 73% acreditam que a medida de Trump tem como objetivo favorecer Flávio Bolsonaro. Já no eleitorado do próprio senador, o percentual cai para 29%. Esta discrepância sugere que a interpretação sobre a política comercial americana é fortemente mediada pelas lealdades partidárias existentes no Brasil. É a confirmação, em números, de que um mesmo fato pode gerar narrativas distintas, dependendo de quem o observa.

O dado mais revelador, em minha opinião, é que mesmo entre os que pretendem votar em Flávio Bolsonaro, quase três em cada dez eleitores admitem a possibilidade de uma interferência externa em seu favor. Esse reconhecimento parcial, vindo de dentro de sua própria base, indica que a associação com Trump é percebida como uma aliança concreta e com consequências práticas, para além do alinhamento discursivo.

Enquanto 74% dos entrevistados defendem que o governo brasileiro negocie uma solução com os americanos, a pesquisa também atribui responsabilidades. Para 35% dos ouvidos, o principal responsável pela crise é o presidente Lula. Em seguida, aparecem Donald Trump (28%) e os irmãos Bolsonaro (23%). Fica a pergunta sobre como os candidatos administrarão essas percepções: se a associação com uma liderança estrangeira continuará sendo um ativo político ou se passará a ser percebida como um passivo diplomático com custos eleitorais.

Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Datafolha aponta que 52% veem tarifaço de Trump como ajuda a Flávio

Fontes: g1 · Folha de S.Paulo