A segunda morte de Messi
Análise · Marcos Tibúrcio Houve um silêncio. Um instante de nada, oco, entre o chute de Ferran Torres e o abraço dos espanhóis em Nova Jersey.
Análise · Marcos Tibúrcio
Houve um silêncio. Um instante de nada, oco, entre o chute de Ferran Torres e o abraço dos espanhóis em Nova Jersey. Foi o tempo exato para a arquibancada entender o que via: a história negando-se, pela última vez, a Lionel Messi. A Espanha é bicampeã do mundo. E a Argentina, depois de caminhar sobre as águas por quatro anos, afogou-se a poucos metros da praia.
O futebol, que tantas vezes pareceu um roteiro escrito para Messi, desta vez serviu-lhe o prato mais frio. Aos 39 anos, ele não era o menino de Rosário nem o gênio do Camp Nou. Era um rei crepuscular, administrando o fôlego e os clarões de um talento que já não bastava para tudo. A Argentina inteira parecia jogar na ponta dos pés para não acordar a idade do seu camisa 10. Jogou tão pouco, com tanto medo da própria finitude, que sequer finalizou a gol até que o placar já estivesse perdido.
A Espanha, do outro lado, era a juventude. Um garoto como Lamine Yamal, que era um projeto de gente quando Messi já era deus, encarnou a passagem do tempo. Nico Williams, o ponta que quase não jogou a Copa por uma entrada violenta, foi a resiliência. Rodri, o volante que organizou o meio-campo com a discrição de um mestre de obras, foi a razão. A Espanha não jogou com a fúria do apelido; jogou com a paciência do caçador.
Enquanto a bola rolava no MetLife Stadium, a milhares de quilômetros, um país inteiro sentava diante da televisão para assistir ao velório do vizinho. No Brasil, torcer pela Espanha não foi um ato de admiração pelo futebol de Rodri ou pelos cachos de Cucurella. Foi um esporte à parte, uma catarse. Um jeito de gritar um gol que não era nosso, para que o rival não celebrasse um título que se aproximaria demais do nosso quintal. Os memes, as piadas, a alegria pela derrota alheia — tudo isso foi o eco de nossa própria ausência. Foi a festa triste de quem não foi convidado para o baile.
O presidente argentino decretou feriado para celebrar o vice-campeonato. É o tipo de gesto que só o drama do futebol explica. Festejar a derrota digna, a jornada do herói que morre no final. Para Messi, porém, não haverá consolo. Em 2014, no Maracanã, a Alemanha o matou pela primeira vez. Ele ressuscitou no Catar, em 2022. Agora, em 2026, a Espanha enterrou o sonho de uma vez por todas. Sem épica, sem pênaltis, sem choro redentor. Apenas o silêncio.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · ge