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Heitor Graça reflete sobre a sede de sua samambaia na varanda

Heitor Graça observa como sua samambaia reage dramaticamente à falta de rega, murchando as folhas com intensidade.

Heitor Graça reflete sobre a sede de sua samambaia na varanda
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Tenho uma samambaia na varanda que, se eu esqueço a rega de um dia, murcha as folhas como um ator dramático. É uma chantagem silenciosa. As pontas secam, a haste verga, e a planta inteira me olha com uma acusação vegetal que só eu pareço entender. Hoje de manhã, enquanto eu lhe dava a água devida, li sobre uma reunião em Ulaanbaatar, na Mongólia.

Parece que lá, num salão com ar-condicionado e garrafas de água mineral sobre a mesa, homens e mulheres importantes decidiram que a sede do mundo pode esperar mais um pouco. O acordo para lidar com as secas foi adiado. Os especialistas usaram palavras como “frustrante” e “sabor amargo”. Para a minha samambaia, a falta de água também tem um gosto, mas não há palavra para descrevê-lo, apenas o lento tombar de suas folhas.

Alguém disse que é inacreditável: a Europa com uma seca histórica, o Rio Colorado diminuindo nos Estados Unidos, o risco para a Amazônia. E a decisão foi empurrada para a próxima conferência, no Egito. É como se eu, vendo a samambaia desfalecida, prometesse a ela: “Fique tranquila, semana que vem eu te rego”. Ela não duraria até lá. A sede não costuma aceitar prazos.

Entendo pouco de fundos globais e mecanismos multilaterais. Mas compreendo a lógica de uma planta. A terra seca pede água hoje. Uma comunidade que vê o rio baixar não pode esperar dois anos por um comitê. Sei que minha leitura do fato é apenas esta, a de um homem que conversa com plantas numa varanda em Copacabana. Outros, com mais dados, talvez vejam complexidades que me escapam.

A samambaia, agora, já se reergueu. O verde voltou a ter um brilho decente. É um alívio pequeno, doméstico, que se resolve com um copo d’água. Mas fico pensando nos lugares onde não há torneira à mão, apenas a longa espera por uma chuva que não vem, e por um acordo que também não.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: COP17 adia acordo sobre secas

Fonte: Agência Brasil