A rifa como política de saúde
Análise · Clara Verdi Há gestos que contêm um sistema político inteiro.
Análise · Clara Verdi
Há gestos que contêm um sistema político inteiro. Uma artesã de 62 anos percorrendo as ruas de Assunção em busca de algodão e uma cânula para a filha, internada num hospital público que não os tinha. Um goleiro da seleção nacional vendendo a própria camisa, a memória de um sub-20, as chuteiras, para pagar o tratamento do filho recém-nascido. Não se trata de caridade, nem de episódios isolados de ineficiência; trata-se do Paraguai, onde a saúde pública foi terceirizada para a sorte e para a solidariedade desesperada dos seus cidadãos.
A história de Daniela Benítez e de Orlando Gill, o goleiro, ilumina com a crueldade dos fatos a arquitetura de um Estado que se ausenta no momento mais fundamental. Quando María del Pilar, filha de Daniela, deu entrada na emergência com uma pneumonia grave, o hospital apresentou a lista de compras. Uma lista que custou 800 dólares e a organização de uma rifa familiar, esse mecanismo popular que transforma a desgraça privada em espetáculo comunitário e aposta coletiva contra a morte. A rifa como política de saúde de facto.
Um sistema desenhado para falhar
Por trás da humilhação de ter de comprar os próprios insumos médicos está uma decisão orçamentária. O Paraguai investe 4% de seu PIB em saúde, um terço abaixo do mínimo de 6% recomendado pela Organização Pan-Americana da Saúde para que um sistema possa aspirar à universalidade. A estatística, fria, é o que permite que médicos sobrecarregados trabalhem sem as ferramentas mais básicas, é o que torna o sistema paraguaio, nas palavras da Associação Latino-Americana de Medicina Social, "um dos mais injustos de toda a América Latina".
A injustiça tem uma forma concreta: a camisa de um atleta, símbolo de orgulho nacional, vendida para garantir a sobrevivência de um bebê que a nação desamparou. Melissa Ávalos, mulher de Gill, resumiu a transação em uma frase de clareza absoluta.
Ele vendeu tudo. Vendeu a camisa da seleção sub-20, não conseguiu guardá-la de lembrança. Vendeu suas roupas, suas chuteiras. Literalmente: vendeu tudo.
O que se vende, no Paraguai, não é apenas um uniforme. É a própria ideia de que o Estado existe para proteger seus cidadãos, e não para forçá-los a leiloar suas vidas e suas memórias no mercado improvisado da necessidade.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Paraguai tem baixo investimento e força pacientes a pagar por insumos
Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.