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A revolução que devora seus votos

Análise · Clara Verdi A história das revoluções é frequentemente a história de como elas terminam.

A revolução que devora seus votos
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A história das revoluções é frequentemente a história de como elas terminam. Na Nicarágua, o fim parece assumir a forma de uma circular administrativa, um plano de trabalho anunciado no Congresso para tornar o voto uma memória. A declaração de Daniel Ortega — “não haverá mais eleições” — não foi um lapso, mas o enunciado de um princípio que agora se converte em lei. Trata-se de um ato que transcende a mera consolidação de poder; é a formalização do divórcio entre a soberania popular e o Estado, uma dissolução de contrato assinada unilateralmente pelo homem que um dia encarnou a própria promessa revolucionária.

Ouve-se o eco de 1979 em cada justificativa. Ortega, ao evocar os “ianques” e os “somozistas”, não fala ao presente, mas tenta reanimar os fantasmas do passado para assombrar o futuro. É uma retórica de cerco, onde a oposição interna é transfigurada em lacaio do império, e a eleição, em porta de entrada para a manipulação estrangeira. O presidente da Assembleia Nacional, Gustavo Porras, usa a mesma partitura: a soberania nacional como escudo para aniquilar a pluralidade política. É um velho truque de poder. Na boca de um ex-revolucionário, soa menos como defesa da pátria e mais como o testamento político de uma geração que decidiu morrer abraçada ao leme, afundando o navio inteiro se preciso.

A última página do manual

A comparação com a Coreia do Norte, feita pelo opositor Juan Sebastián Chamorro, é útil como hipérbole para o espanto, mas imprecisa. O que se desenha em Manágua não é a dinastia hermética de Pyongyang, mas algo mais tragicamente latino-americano: a revolução que, esgotado seu impulso vital, devora a si mesma até restar apenas o esqueleto do poder puro. O poder pelo poder. A repressão violenta aos protestos de 2018, que ceifou centenas de vidas, já havia sido a negação prática da soberania que o discurso oficial agora diz proteger. A abolição formal das eleições é apenas o capítulo final, a conversão da violência conjuntural em estrutura permanente. A copresidência de Rosario Murillo, esposa de Ortega, completa o quadro, transformando o projeto político em patrimônio familiar. O sandinismo, que já foi um horizonte de esperança para tantos, se converte em seu exato oposto: um beco sem saída com nome e sobrenome.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Congresso da Nicarágua inicia plano para abolir eleições

Fontes: g1 · BBC News Brasil